Repertorium Universale
Introdução e Guia
A estrutura dos repertórios. Kent. Bönninghausen. Complete Repertory.
Pontuação do repertório. Revisão do sistema de pontuação.
Fundamento lógico para as alterações. Na estrutura. Na pontuação.
Introdução
Durante as últimas três décadas muito trabalho foi feito na integração e melhoria dos antigos repertórios existentes, mas os padrões utilizados nessas melhorias ainda são amplamente baseados no modelo criado por James Tyler Kent há mais de um século. Este apresenta suas limitações, já que o amplo potencial dos outros métodos de repertorização, particularmente Bönninghausen, não pode ser totalmente utilizado em um único repertório.
A técnica de Bönninghausen apresenta uma flexibilidade consideravelmente maior e um maior potencial para a resolução de casos baseado somente nos sintomas completos. Isso se deve ao fato do sintoma completo do paciente, qualquer que seja, poder ser reconstruído através de suas partes componentes utilizando rubricas de sintomas parciais, cada uma das quais característica dos remédios que as contém. É extremamente útil nos casos onde sintomas peculiares e característicos não podem ser incluídos na repertorização porque simplesmente não estão no repertório.
Através da restruturação do formato das rubricas no Repertorium Universale, os modelos de Kent e Bönninghausen estão acomodados e apresentados como um único repertório totalmente integrado. O repertório de estrutura Kentiana (ie. o Complete Repertory) foi acomodado dentro de uma hierarquia expandida que agora inclui as rubricas de Bönninghausen na classificação primária dos sintomas. Isso resultou em um repertório que efetivamente oferece o melhor dos dois mundos – a grande precisão dos sintomas completos encontrados na estrutura Kentiana, mais a grande flexibilidade da combinação de sintomas promovida pelas rubricas de estilo Bönninghausen.
No Repertorium Universale foram feitas aproximadamente 1.5 milhões de adições de remédios em aproximadamente 180.000 rubricas, com enorme número de referências cruzadas. Ele inclui todas as características do Complete Repertory. A pontuação dos remédios – uma indicação da confiabilidade do remédio no contexto de cada sintoma – foi reclassificada e posteriormente elucidada. As abreviaturas dos nomes dos remédios foram corrigidas e os sinônimos reconciliados. E mais importante, a restruturação do layout das rubricas torna possível a utilização de diferentes métodos de repertorização em uma única estratégia de seleção. Isso torna o Repertorium Universale uma ferramenta mais flexível na avaliação da sintomatologia do paciente em relação ao perfil do medicamento na mateira medica.
O guia detalhado que vem a seguir explica exatamente como, onde e porque o Repertorium Universale difere de seus antecessores, e quais benefícios ele oferece que não estavam disponíveis em um único repertório até hoje.
Guia Detalhado
No Congresso Homeopático de Bruxelas, no qual foi Presidente Honorário, Bönninghausen lançou um desafio aos profissionais. Ele ofereceu um prêmio para o melhor ensaio que sucintamente definisse os sintomas da doença de acordo com seu valor característico para possibilitar um entendimento básico para o uso na prática. Um período de dois anos foi concedido para as respostas. Após mais de tres anos de um silêncio retumbante, ele mesmo respondeu a questão (1). (O ensaio de Bönninghausen pode ser acessado a partir da página de Artigos de seção de Referências.)
Fundamentando suas propostas firmemente no § 153 do Organon de Hahnemann (Sinais e sintomas raros, estranhos, peculiares e característicos), ele os adaptou a um hexâmetro Latino que trouxe de volta a luz, que remonta da Idade Média e foi criada pelos teólogos da época para definir as dimensões das doenças “morais” (verso hexâmetro de Quintiliano). Ocorre que, a máxima do século 12 de Bönninghausen presta-se muito bem à definição das características do Repertorium Universale, o primeiro repertório que traz esse trabalho compreensivelmente para o século 21 e o eleva a um patamar equivalente à sua importância. Portanto, parafrasear Bönninghausen pode ser permitido, para anexar nossos comentários a esse esquema.
Quis? (Quem?)
O Repertório. O que é um repertório? História do desenvolvimento dos repertórios. Diferenças de abordagem.
Barão Clemens F M von Bönninghausen, James Tyler Kent, Constantine Hering
Em 1834, quando o primeiro repertório de Bönninghausen já estava disponível há dois anos (já na Segunda edição), e o de Jahr, que era baseado no modelo de Bönninghausen, publicado somente alguns meses antes, Hahnemann apontou o grande obstáculo que o repertório representava aos praticantes. Em uma carta a Bönninghausen, ele se queixava de que mesmo se os homeopatas conseguissem ver que os repertórios isoladamente não são suficientes para encontrar o remédio, com um repertório em suas mãos eles, apesar disso relaxariam pensando que poderiam dispensar a literatura concomitante (2), um ponto tão válido quanto há 170 anos. Paradoxalmente, quanto melhor um repertório se torna, mais suas limitações essenciais necessitam ser salientadas.
Apesar de parecer declarar o óbvio, o repertório é um índice. As folhas finais da matéria médica. Existem inúmeras maneiras diferentes de indexar um material, algumas intrinsecamente melhores que outras, questão de preferência pessoal. Alguns índices são mais apurados que outros. Também não existem dúvidas de que um bom índice é um complemento valioso para sua fonte de material, mas o índice no final do livro nunca pode substituir a matéria contida nele.
O repertório homeopático (do latim repertorium, um inventário) emergiu como conceito em torno de 1817 quando Hahnemann começou a catalogar todos os sintomas colhidos do crescente número de patogenesias que estava conduzindo nesse período. Sua listagem alfabética dos sintomas (Symtomenlexikon) chegou a ter 4 volumes, mas nunca foi publicada. Isso ocorreu 15 anos antes da publicação do primeiro repertório – Bönninghausen’s Repertory of Antipsoric Medicines – em 1832.
A melhor maneira de estruturar e organizar a indexação da matéria médica ocupou inúmeras mentes daquele tempo, e os debates sobre as vantagens e desvantagens de cada esquema continuou durante um período de 15 anos, e por muitos anos além. O debate se cristalizava em torno de um único assunto crítico – de como indexar um sintomas sem perder as características que o tornavam característicos de um remédio. As opiniões divergiam nesse ponto.
Alguns (notavelmente Hering) eram favoráveis a preservar cada sintoma inteiro e propôs um índice tendendo para a exclusividade. Esse índice resulta em um enorme número de rubricas muito específicas (do latim ruber, red: cabeçalho, título) contendo relativamente poucos remédios. Ele apresenta grande precisão porque o sintoma é registrado exatamente como o experimentador o experienciou, apontando para a escolha de remédios muito eficazmente. Mas isso se torna inflexível, para não dizer muito grande. É de pouco uso se o sintoma do caso não bate precisamente com o sintoma registrado, e como resultado fica muito mais fácil perder os remédios potencialmente apropriados (O Repertório de Knerr do Hering’s Guiding Symptoms é provavelmente a mais clara exposição dessa perspectiva repertorial. Knerr era genro de Hering.)
Outros (principalmente Bönninghausen) descobriram que para cada único remédio haviam algumas qualidades ou aspectos particulares nos sintomas – suas dimensões características – que não estavam confinadas a sintomas únicos, mas estavam presentes na expressão do remédio (ex. Ardência em Arsenicum, dores em pontadas em Asafœtida, sensações de bola/caroço em Lilium tigrinum). Então essas dimensões, uma vez estabelecidas como características do medicamento, poderiam ser legitimamente separadas de seus contextos precisos e indexadas em seu próprio lugar. Esse tipo de índice é direcionado para o inclusivismo. Ele resulta em um número menor de rubricas parciais menos específicas contendo relativamente grande número de remédios. Os sintomas completos podem ser construído através da soma de suas partes para se adequar ao caso em questão, sendo a diferenciação final feita entre os remédios que aparecem em todas (ou na maioria) das rubricas. É menos preciso e produz um grande número de possíveis remédios a serem diferenciados, mas é muito mais flexível e torna menor a probabilidade de perder o remédio apropriado. O refinamento mais econômico e elegante deste método, que foi desenvolvido com a colaboração de Hahnemann, é encontrado no Therapeutic Pocketbook de Bönninghausen de 1846 (3). (A introdução da edição do Therapeutic Pocketbook de T.F.Allen de 1897, incluindo a introdução original de Bönninghausen pode ser obtida na página de Artigos da Seção de Referências)
Muitos outros repertórios se seguiram, de inúmeros autores, muitos deles publicados como pequenos volumes especializados devotados a uma determinada parte do corpo, ou a uma condição em particular. Outros refletem abordagens diferentes de busca do remédio.
Kent, cujo repertório compilado de 1897 forma a base da maioria dos repertórios em uso comum atualmente, adquiriu um certo comprometimento entre as perspectivas exclusiva e inclusiva. Ele concordava com a indexação das qualidades características próprias dos sintomas (4) e incluiu uma grande parte do Therapeutic Pocketbook em seu próprio trabalho, particularmente na seção Generalidades. A visão amplamente difundida hoje, de que a abordagem de Kent é oposta à de Bönninghausen, é imprópria por esse motivo. Apesar do fato de Kent posteriormente se opor a Bönninghausen e focar algumas de suas críticas nos princípios de generalização (5), a raiz da diferença entre eles jaz em outro ponto. Ela se baseia no conceito de Kent em relação a hierarquização do sintoma, que está ausente no ponto de vista de Hahnemann e Bönninghausen.
A imposição de Kent de sua visão Swedemborguiana de hierarquia dos sintomas em oposição ao esquema não-hierárquico de Bönninghausen o levou a um impasse conceitual quando tinha que lidar com modalidades de sintomas individuais (“particulares” de Kent) que eram o oposto das modalidades generalizadas (“gerais”de Kent) – ex. ombro doloroso pior pelo movimento e melhor enquanto o paciente caminha. Na visão de Kent, uma modalidade que se torna característica geral do estado não é um “particular”, mas um “geral”, e uma vez que seja “geral”, não pode ser “particular”. Ele não poderia adotar a abordagem de Bönninghausen (que se ajustaria a essas eventualidades. Ex: Agravação, movimento da parte afetada, e Melhoria; andando) com seu ponto de vista, o que o compeliu a criar essa separação imaginária entre “gerais” e “particulares” em um ranking hierárquico. O ponto cego de Kent – de certo modo confundindo uma modalidade particular aplicável no geral com uma modalidade geral aplicável para uma pessoa como um todo – o levou a criticar publicamente o trabalho de Bönninghausen e criar uma perspectiva artificialmente polarizada das duas abordagens, o que não é sustentável através de estudos detalhados do trabalho de ambos.
Portanto, foram as limitações da hierarquia de Kent, e não qualquer discórdia com o princípio de indexação das dimensões características por si só, que inevitavelmente dirigiram a estrutura do repertório de Kent em direção ao ponto de vista exclusivista de Hering (outro Swedenborguiano).
Uma das maiores forças do repertório de Kent jaz no desenvolvimento dos sintomas na esfera mental e emocional, uma área na qual Bönninghausen somente indexou termos breves e essenciais no Therapeutic Pocketbook devido a grande especificidade dos sintomas da seção Mente e ao maior potencial de erro em sua interpretação (A seção Mente no repertório de Kent foi substancialmente melhorada através de cada edições do Complete Repertory).
Os programas de repertorização computadorizada apareceram inicialmente no final da década de 80 e a estrutura de Kent foi a adotada a princípio nos vários repertórios digitais que os acompanham. Dois grandes projetos de repertórios progrediram desde então. O Synthesis continuou a se desenvolver em linhas Kentianas, expandido através do ponto de vista de Hering. Sua edição mais recente (versão 9) inclui o material de Boger e Bönninghausen com (versão 9.1) alguma restruturação de sub-rubricas para permitir a mudança na ênfase na generalização das dimensões características, mas sem integração total ou atualizações. O Complete Repertory, por outro lado, em suas edições originais e subsequentes (Millenium) foi progressivamente se movendo em direção a integração com a abordagem inclusiva de Bönninghausen e a exclusiva de Hering. No Repertorium Universale, a adição de todos os repertórios de Bönninghausen foi finalizada, as rubricas específicas de Bönninghausen foram atualizadas, se não totalmente, praticamente com quase todo material pós-Bönninghausen, e a fundação Kentiana finalmente dá lugar a uma estrutura que permite um equilíbrio entre flexibilidade e precisão.
Quid? (O Que?)
A estrutura dos repertórios. Kent. Bönninghausen. Complete Repertory.
A maioria dos repertórios utiliza divisões anatômicas (Localização) como sistema primário de classificação, com adição de várias seções especializadas (Mente, Vertigem, Tosse, Febre, Transpiração, etc.) e uma seção Geral para sintomas que afetam o organismo inteiro. Tanto Kent como Bönninghausen utilizam essa divisão anatômica primária (com algumas variações), assim como o Repertorium Universale.
Kent, com seu ponto de vista hierárquico e focado na preservação do sintoma completo a nível de “particular”, começa com uma listagem alfabética dos sintomas caracterizados de acordo com sensações (chamados de Fenômenos no Repertorium Universale) como primeiro nível de hierarquia em cada seção. Cada sintoma é então qualificado por modificações dispostas em blocos – LATERALIDADE, Horário, Modalidades, (incluindo Concomitantes e Causalidade), Extensões, Localizações e Fenômenos. Por exemplo, Cabeça (Localização Primária/Seção); Dor (Sensação/Fenômeno); anoitecer (Horário). A hierarquia então se estende a níveis mais profundos através da aplicação contínua da estrutura em blocos até as duas modificações finais (Localização e Fenômenos), então começam a apresentar suas próprias modificações, ex. Cabeça, Dor; fronte; anoitecer, ou Cabeça, Dor; ardente, anoitecer, e daí por diante, ex. Cabeça; Dor, ardente, fronte, anoitecer, cama, na (Outras sub-rubricas referentes às quatro modificações iniciais simplesmente adicionam maior precisão, ex. Cabeça; Dor; noite; 20 a 21 hs). Embora esse método preserve o sintoma completo em algum lugar dentro da hierarquia, ele dá origem a um número enorme de rubricas muito similares em várias localizações diferentes, freqüentemente contendo vários remédios diferentes. Por exemplo, o remédio único em Cabeça; Dor, ardente; fronte; noite; cama, na (Nat-c) não aparece em Cabeça; Dor; fronte; noite; cama, na, ou em Cabeça; Dor; noite; cama, na ou em Cabeça; Dor; noite.
Hierarquia Repertorial de Kent
| SEÇÃO | 1º NIVEL | 2º NIVEL | 3º NIVEL | 4º NIVEL | ETC | |||||
| LOCALIZAÇÃO PRIMÁRIA | → | Fenômenos | → | Lateralidade | → | Lateralidade | ||||
| (ex. Cabeça) | (ex. Dor) | Horários | → | Horários | ||||||
| (ex. anoitecer) | (ex. cama, na) | |||||||||
| Modalidades | → | Modalidades | ||||||||
| Extensões | → | Extensões | ||||||||
| Localizações | → | Lateralidade | → | Lateralidade | ||||||
| (ex. fronte) | Horários | → | Horários | |||||||
| (ex. anoitecer) | (ex. cama, na) | |||||||||
| Modalidades | → | Modalidades | ||||||||
| Extensões | → | Extensões | ||||||||
| Localizações | → | Lateralidade | → | Lateralidade | ||||||
| Etc | → | Etc | ||||||||
| Fenômenos | → | Fenômenos | ||||||||
| Fenômenos | → | Lateralidade | → | Lateralidade | ||||||
| (ex. Ardente) | Horários | → | Horários | |||||||
| (ex. anoitecer) | (ex. cama, na) | |||||||||
| Modalidades | → | Modalidades | ||||||||
| Extensões | → | Extensões | ||||||||
| Localizações | → | Lateralidade | → | Lateralidade | ||||||
| (ex. fronte) | Horários | → | Horários | |||||||
| (ex. anoitecer) | (ex. cama, na) | |||||||||
| Etc | → | Etc | ||||||||
| Fenômenos | → | Fenômenos | ||||||||
Na prática, poucas rubricas além de Dor se aprofundam tanto (Cabeça, Dor – é a rubrica mais complexa entre as rubricas principais do repertório inteiro), e para evitar repetições inúteis, o bloco de Fenômenos não é expandido além do segundo nível da hierarquia. Existem algumas inconsistências na aplicação da estrutura resultante da necessidade de preservação dos sintomas em sua totalidade. Modificações não relacionadas ao assunto dos blocos eventualmente podem ser encontradas, ex. Cabeça; Dor; noite; acender o gás, melh, onde acender o gás não qualifica Horário, e não é encontrado dentro do bloco das Modalidades, onde ele certamente pertence se a estrutura de hierarquia for precedente.
Bönninghausen utiliza uma estrutura muito mais simples que não se estende à profundidade ou complexidade de Kent. Qualquer senso de hierarquia é puramente organizacional (mais do que filosófico), já que a importância de um sintoma é determinada unicamente por suas qualidades características (i.e. §153). Seus repertórios são divididos em seções anatômicas, nas quais ele lista as Localizações, Lateralidade, Horário, Concomitantes, Agravações, Melhorias, Alternâncias e Sensações (Fenômenos) todos no mesmo nível. Sub-rubricas geralmente adicionam mais precisão dentro do foco da rubrica principal, ex. Cabeça; Fronte; olhos, atrás, ou Cabeça, Horário; anoitecer; 21h às 1h, embora as Sensações possam ser qualificadas mais tarde através da Localização e vice-versa. A generalização não é automática – as sub-rubricas podem conter mais remédios do que a rubrica principal, ex. (no repertório Boger-Bönninghausen) Cabeça; ardente e quente (28), Cabeça; Ardente e quente; fronte (29), Cabeça; Ardente e quente; vértice (31). Se o sintoma completo exato não pode ser encontrado, ele pode ser obtido através da soma de suas partes, ex. Cabeça; Horário; anoitecer, mais Cabeça; Ardente e quente; fronte, mais Generalidades; Agravação; Deitado; cama, na. Essa análise (ainda no repertório Boger-Bönninghausen) permite discussões em todas as 3 rubricas, incluindo Nat-c.
Estrutura Repertorial de Bönninghausen
| SEÇÃO | ||||
| LOCALIZAÇÃO PRIMARIA | → | LATERALIDADE | → | Lateralidade |
| LOCALIZAÇÃO (incl. Extensões) | → | Localizações/Fenômenos | ||
| (ex. fronte) | ||||
| HORÁRIOS | → | Horários | ||
| (ex. anoitecer) | ||||
| AGRAVAÇÕES (incl. Causalidade) | → | Agravações | ||
| MELHORIA | → | Melhoria | ||
| CONCOMITANTES | → | Concomitantes | ||
| FENÔMENOS (incl. Alternâncias) | → | Fenômenos/Localizações | ||
| (ex. ardente e quente) | ||||
O Complete Repertory utiliza a estrutura hierárquica Kentiana (com adição das Alternâncias á estrutura de blocos do segundo nível e subsequentes na hierarquia), enquanto assegura que os remédios estão no nível mais profundo, introduzidos apropriadamente em cada uma das rubricas mais gerais acima delas, permitindo alguma combinação de sintomas, mas ainda assim muito longe do potencial oferecido pela estrutura de Bönninghausen. Refinamentos posteriores foram feitos na edição Millenium, removendo inconsistências onde uma rubrica secundária em Kent significava o oposto da rubrica principal (ex. Mente; Brincadeira, e Mente; Brincadeira; aversão a), apesar de ainda aderir ao esqueleto Kentiano básico.
Ubi? (Onde?)
Onde as alterações foram feitas para criar o Repertorium Universale. Detalhes da nova estrutura. Onde achar as rubricas. Referências cruzadas. Números de remédios e rubricas.
Finalmente, no Repertorium Universale, o esquema Kentiano foi alterado para permitir a integração total das rubricas do estilo Bönninghausen no primeiro nível da hierarquia.
O que restringe o repertório de Kent à sua natureza hierárquica fragmentada, e impede um possível casamento com o esquema de Bönninghausen é a listagem alfabética dos Fenômenos (sensações) no primeiro nível da hierarquia. Já que os Fenômenos são parte da estrutura de blocos repetitiva, não é necessário definir o primeiro nível da hierarquia dessa maneira. Através da elevação da estrutura de blocos a esse nível, se torna possível incluir as rubricas equivalentes do esquema de Bönninghausen, e atualizar essas rubricas do primeiro nível com remédios que estão habilitados em todas as rubricas correspondentes nos níveis mais profundos da hierarquia Kentiana. Isso também torna a estrutura do repertório inteiramente consistente em toda a sua extensão. Essa pequenas alterações básicas removem as limitações na hierarquia Kentiana, permitem a estruturação do repertório como um todo, enquanto preservam a parte Kentiana do repertório em sua integridade, e a abordagem Kentiana na estrutura repetida de blocos.
Hierarquia Repertorial do Repertorium Universale
| SEÇÃO | 1º NÍVEL | 2º NIVEL | 3º NÍVEL | ETC | ||||
| LOCALIZAÇÃO PRIMARIA | → | ALTERNANCIAS | → | Alternâncias | ||||
| LATERALIDADE | → | Lateralidade | ||||||
| HORÁRIO | → | Horário | ||||||
| MODALIDADES | → | Modalidades | ||||||
| EXTENSÕES | → | Extensões | ||||||
| LOCALIZAÇÕES | → | Localizações | ||||||
| FENÔMENOS | → | ALTERNANCIAS | Como no Complete Repertory |
|||||
| LATERALIDADE | ||||||||
| HORÁRIO | ||||||||
| MODALIDADES | ||||||||
| EXTENSÕES | ||||||||
| LOCALIZAÇÕES | → | Localizações | ||||||
| FENÔMENOS | → | ETC | ||||||
Para utilizar o repertório da maneira Kentiana familiar é necessário somente descer um nível – ao bloco dos Fenômenos da primeira hierarquia – para encontrar todos os sintomas dispostos em sua maneira costumeira com sua hierarquia original preservada intacta.
Para utilizar as rubricas generalizadas de Bönninghausen, os sintomas do caso são construídos a partir das rubricas de sintomas parciais generalizadas apropriadas entre as modificações do sintoma (Alternâncias, Lateralidade, Horário, Modalidades, Extensões, Localizações) mais os fenômenos. Essas rubricas foram criadas para cada seção a partir das rubricas originais de Bönninghausen, incluindo adições posteriores de seus trabalhos manuscritos, atualizadas com todos os novos remédios e confirmações clínicas que procedem. Eles formam o primeiro nível da hierarquia em cada seção. Os remédios somente se qualificam para a adição nas rubricas se a qualidade do sintoma é claramente característica do remédio. Esse componente essencial – de fato o principio básico – do processo de generalização de Bönninghausen não pode ser excessivamente enfatizado, tendo sido consistentemente bombardeados por críticas a abordagem que corretamente chamou atenção às ocasiões onde a generalização é imprópria. No Repertorium Universale uma qualidade de sintoma é considerada uma característica se aparece em três ou mais sintomas separados, e foi adicionada as rubricas do estilo Bönninghausen com esse critério, mantendo a mais alta pontuação encontrada em qualquer uma dessas ocorrências.
Algumas exceções no processo de atualização devem ser mencionadas. A seção Mente contém duas rubricas de Bönninghausen que foram adicionadas por completo e não atualizadas. A primeira é Concomitantes – remédios que apresentam alterações mentais em concomitância com sintomas físicos. A Segunda é Gerais – remédios com uma afinidade geral para a esfera mental/emocional. A atualização se dará quando (ou se) o critério de Bönninghausen para inclusão forem encontrados. Existe uma rubrica Concomitante similar na seção Generalidades.
Outras três seções foram introduzidas na classificação primária (Coração e Circulação, Sangue, e Clínica) e as duas seções de fenômenos que foram listadas da sua maneira nas edições do Complete Repertory – Dor de Cabeça e Dor nas Extremidades – foram reincorporadas nas seções de Cabeça e Extremidades. As seções indexando os temas de Mirilli (do Repertório Temático e Mateira Médica Temática de J.A.Mirilli), introduzida na edição Millenium do Complete Repertory, está mantida, agora com mais referências-cruzadas e mais remédios.
As referências cruzadas entre as rubricas foram exaustivamente revisadas e aumentadas, sendo que o novo repertório apresenta mais do que o dobro do número incluído na última edição do Complete Repertory.
O Repertorium Universale contem aproximadamente 1.5 milhões de adições de remédios em aproximadamente 180.000 rubricas.
Quibus Auxiliis? (Por Que Meios?)
Pontuação do repertório. Revisão do sistema de pontuação.
A pontuação do repertório provê uma fonte adicional de informações sobre a natureza característica dos sintomas do remédio, mas freqüentemente é mal compreendida. Muitos pensam que ela representa a intensidade de um sintoma, o que pode ter se originado nas lições de Kent (5). Isso é incorreto. A pontuação do repertório, inobstante o critério específico que varia de repertório para repertório, sempre indicou freqüência: o número de vezes em que um sintoma particular foi observado em um remédio. A pontuação é consequentemente uma graduação confiável – uma indicação de segurança, ou qualidade característica, ou simplesmente o fato de que o remédio é um policresto e apresenta mais confirmação clínica documentada. Isso não tem relação direta com a intensidade.
Junto com as alterações estruturais do repertório, o sistema de pontuação no Repertorium Universale foi completamente revisado, alterando a classificação baseada em Kent para outra baseada nos critérios de Bönninghausen.
| Pontuação de acordo com Bönninghausen | Um ponto | Dois pontos | Três pontos | Quatro pontos |
| Complete Repertory 4.5, Complete Repertory Millennium, Kent's Repertory |
Encontrado em Patogenesias, ou retirado diretamente da experiência clínica, toxicológica ou uso fitoterápico | – | Dois pontos de Kent. Encontrado em Patogenesias e verificado clinicamente | Três pontos de Kent. Encontrado em Patogenesias e freqüentemente verificado clinicamente |
| Repertorium Universale, Complete Repertory 2001-03, Boger's Bönninghausen Repertory, Therapeutic Pocketbook |
Encontrado em Patogenesias, ou retirado diretamente da experiência clínica, toxicológica ou uso fitoterápico | Encontrado em dois ou mais experimentadores, não necessariamente verificado clinicamente | Encontrado em Patogenesias e verificado clinicamente | Encontrado em Patogenesias e freqüentemente verificado clinicamente |
O ponto importante a ser observado é que a primeira Pontuação/Grau de Kent eqüivale às duas primeiras pontuações no sistema de Bönninghausen.
Nenhum sistema de pontuação distingue os sintomas patogenéticos das informações clínicas, mas o sistema de Kent contém um conflito fundamental em seu critério, o que o torna ilógico e difícil de aplicar e interpretar. Kent define seu primeiro grau dizendo que ele deveria incluir sintomas experimentados “hoje e sempre” em patogenesias, o segundo é para sintomas encontrados em “alguns” experimentadores, e o terceiro para sintomas “em todos ou na maioria” dos experimentadores (6). Ele então ultrapassou essa diferenciação estipulando que para toda pontuação 2 é necessária confirmação clínica, consequentemente relegando todos os sintomas patogenéticos à pontuação 1, independente de sua significância, até o momento em que recebesse a confirmação clínica.
A pontuação 4 de P.Schmidt (introduzida no Synthetic Repertory de Barthel & Klunker e incorporado no Complete Repertory) é amplamente equivalente a pontuação 4 do sistema de pontuação de Bönninghausen, e portanto, não é mais mostrada separadamente no Repertorium Universale.
Nessa primeira edição do Repertorium Universale existem poucos remédios na pontuação 2 redefinida. Os incluídos provém freqüentemente de patogenesias recentes. O uso do sistema Kentiano de pontuação até esse ponto significa que o primeiro grau corrente inclui todos os remédios originariamente definidos como de segundo em todos os trabalhos que utilizam o sistema de pontuação de Bönninghausen. Eles serão relocados no segundo grau quando ocorrer uma extensa revisão das fontes de dados dos remédios de pontuação 1.
Cur? (Por Quê?)
Explicação para as alterações. Na estrutura. Na pontuação.
Como deve estar claro agora, a informação em um repertório de estilo Kentiano apresenta a qualidade de singularidade, mas é mais ou menos limitado aos sintomas completos derivados das patogenesias, enquanto as informações em um repertório do estilo Bönninghausen é mais generalizado e não restrito aos sintomas completos das patogenesias. O dogma prevalente estabelece que uma pessoa deve utilizar um determinado método, mas em termos práticos parece haver poucas razões para isso, e que ambas abordagens – e muitas outras – não devem ser incorporadas em um único repertório, abolindo a polarização artificial evidente na percepção dos diferentes métodos. Isso permite a vantagem de livre combinação da perspectiva exclusiva (especificidade, precisão) com as vantagens da perspectiva inclusiva (combinação, totalidade), e que ambas abordagens possam ser utilizadas intercambiavelmente quando e se apropriado. Isso também significa que as desvantagens de cada perspectiva podem ser minimizadas – para um nível maior de exclusividade e menor diferenciação.
A abordagem inclusiva apresenta uma vantagem conceitual significativa sobre a exclusiva. Sua flexibilidade permite a criação de uma variedade virtualmente infinita de sintomas completos, que nunca poderiam ser representados em qualquer repertório de estilo Kentiano (os homeopatas atuais ainda estão trabalhando com o Therapeutic Pocketbook de Bönninghausen – do tamanho da seção Mente do Complete Repertory – por esse motivo). A especificidade das rubricas Kentianas pode, na maioria das situações, ser recriada das rubricas de Bönninghausen já que praticamente todos os remédios das rubricas Kentianas estão contidos nas maiores rubricas parciais de Bönninghausen. Combinando as rubricas parciais para reconstruir um sintoma, os remédios Kentianos vão ser automaticamente incluídos, mas usualmente com a adição de outros remédios que não teriam sido incluídos no quadro utilizando somente as rubricas Kentianas.
O trabalho com a abordagem de Bönninghausen também fomenta uma perspectiva diferente na literatura – padrões e temas são enfatizados, o que combina com as últimas tendências da técnica analítica.
As alterações no sistema de pontuação foram efetuadas para permitir uma impressão mais exata da natureza característica dos sintomas registrados nas patogenesias – uma fonte freqüente de frustração para os diretores de patogenesias atuais. O critério de Bönninghausen provê uma clara delineação entre as informações patogenéticas (incluindo dados botânicos e toxicológicos) e a confirmação clínica (que estabelece a real homeopaticidade do remédio ao sintoma). O sistema é mais flexível, e também mais consistente com a literatura antiga (Hering, por exemplo, utilizou a diferenciação de Bönninghausen em seu Guiding Symptoms). Isso permite uma diferenciação mais fina e precisa entre os graus e pavimenta o cominho para revisões posteriores em edições posteriores do repertório que irá pontuar os remédios de acordo com um critério ainda mais preciso, removendo todas as inconsistências e confusões.
A revisão da pontuação é considerada como uma das áreas mais importantes de trabalho dos próximos anos. Todo material nos jornais antigos contém um vasto número de confirmações clínicas de remédios, e muito pouco disso já foi incorporado nas revisões dos repertórios, ou em qualquer um dos repertórios modernos.
Quomodo? (Como?)
Exemplos de casos. Demonstrando a lógica do Repertorium Universale. Utilizando a técnica de Bönninghausen.
Cefaléias menstruais
Regra: as rubricas e remédios das sub-rubricas específicas devem sempre aparecer também na sub-rubrica geral de dor daquela seção específica.
[L M Kenyon MD (Buffalo, NY). “Efeito curativo do Hamamelis”, American Homeopathic Review, Jun-Jul 1860, p412]
“Pode ser que o caso seguinte, demonstrando o efeito curativo de Hamamelis virginica, possa ser de interesse para seus leitores. Mary F, com idade de quatorze anos, sempre gozou de excelente saúde há até dezoito meses atrás, quando menstruou. Na menarca houve dor (considerável) de cabeça e nas costas durante vários dias que a precederam, acompanhada de náusea, vertigem, etc. Prescrevi Hamamelis na sexta e trigésima diluições alternadamente, duas doses de cada a cada vinte e quatro horas, e foi somente esse medicamento que ela tomou durante um mês, exceto duas doses de Arsenicum para dispnéia quando esta incomodou. No mês seguinte, ela menstruou regularmente e não teve sangramentos; e dessa vez se recuperou rapidamente utilizando somente Hamamelis.”
Em Kent, Hamamelis não está incluída na rubrica Cabeça; dor; menstruação; antes, apesar de aparecer em Cabeça; dor; dilacerante, menstruação. Adicionando Hamamelis à rubrica geral de dor, ela pode ser utilizada em casos onde a característica “dilacerante” não foi especificamente mencionada.
Caso clínico de ciatalgia
[C.M. Boger. Caso clínico de ciatalgia de C M Boger, Collected Writtings editado por Robert Bannan. 1994. Churchill Livingstone; p 43-44]
Sra J.K. idade 42. Por seis semanas apresentou rigidez e dor na região lombar quando levantava ou sentava. Agora está confinada ao leito com dores pulsáteis, irritantes, em pontadas com adormecimento irradiadas pelo nervo ciático até o pé, que parecia estar pisando em ???? como se e a coxa estivesse apoiada em pedras; a dor era pior do lado externo da coxa. Dor na panturrilha direita ao levantar-se e a sola direita queimava. Menstruação profusa, com dores nas costas e erupções bolhosas ou aftas. Leucorréia ocasiona prurido. Dorme em cochilos. Fadiga-se fácil no tempo quente. Sedenta. Anorexia. Nervosa, chorosa e inquieta. Ondas de calor. Agravação: manhã e anoitecer. Pressão das roupas. Antes das tempestades. Melhoria: Esfregando. Movimento. Calor, localmente.
26/Dez/1929. Rx. Lachesis 200, uma dose. Melhor em cinco dias e em dez dias completamente bem.”
Ao repertorizar o caso utilizando somente as seções Kentianas do repertório, tomando os sintomas ciáticos ou os mais gerais (como na repertorização ilustrativa), obtemos resultados praticamente inúteis. O remédio curativo dificilmente estará neste resultado. Sintomas característicos como as aftas e erupções bolhosas (apesar de Boger não haver mencionado a localização destas) durante menstruações e fraqueza durante tempo quente não estão contidas no repertório e portanto não podem ser incluídas.
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Entretanto, utilizando a técnica de Bönninghausen, os sintomas completos podem ser reconstruídos a partir de suas partes. Isso pode ser feito tanto através das rubricas listadas separadamente para cada sintomas parcial, como através da construção de rubricas eliminatórias combinadas para cada sintoma completo. A repertorização abaixo apresenta um quadro muito mais claro do remédio curativo.
Caso do Próprio Bönninghausen de ileo paralítico (Obstrução intestinal)
[Um caso de Íleo, de Aphorisms of Hippocrates, CM von Bönninghausen. Em Homeopathic Physician, Junho 1887, p 188. Tradução do Dr A McNeil, São Francisco]
“Esperamos que o gentil leitor nos perdoe se falarmos nessa ocasião de nós mesmos e de nosso inesquecível professor e amigo, Hahnemann. Isso ocorreu no final de março, 1833, quando fomos acometidos dessa doença (íleo paralítico). O íleo direito era foco de uma dor incomodativa, que durou quatorze dias. Quatro médicos, dentre os quais nosso honrado amigo, o Conselheiro Médico Dr. Aegidi, nessa época médico particular do Príncipe Friedrich de Düsseldorf, o único que vive e pode testemunhar essa verdade, apressou-se em socorre-nos e trocaram opiniões, mas em vão. Nós primeiro, no meio da noite do décimo quarto dia, repleto de tormentos inenarráveis, , tivemos a sorte de nós mesmos descobrirmos nosso remédio que previamente nunca tinha sido ministrado para essa doença. Foi para Thuja que fomos direcionados pelas circunstâncias de que somente partes descobertas transpiravam, e profusamente, enquanto as partes cobertas permaneciam secas e quentes – um sintoma que pertence somente a Thuja, e isso é negligenciado até por C W Wolf. Um tablete de thuja 30 aliviou as dores em cinco minutos, e em 10 iniciou um movimento intestinal intenso, seguido de um sono recuperador, do qual acordei na manhã seguinte como se tivesse renascido. Estávamos tomando um lauto café-da-manhã, intensamente saboreado, quando nossos amigos adentraram cheios de alegria e surpresa, e ainda mais admirados quando souberam o remédio responsável pela cura.”
(Bönninghausen escreveu para contar a Hahnemann. A resposta o orientou a pensar em Conium e Lycopodium para “restaurar a atividade dos intestinos”. Bönninghausen encantado relata como, de acordo com a mudança em seus sintomas, tomou esses remédios – Conium dois dias após haver escrito para Hahnemann e Lycopodium justamente na noite anterior ao recebimento da resposta de Hahnemann – e que todos os resquícios da doença desde então desapareceram).
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Um caso de odontalgia
[Um caso de odontalgia, do Aphorisms of Hippocrates, C M von Bönninghausen. No Homeopathic Physician, Abril 1887, p116. Tradução do Dr A McNeil, São Francisco]
“O exemplo instrutivo da seleção do remédio homeopático é o seguinte, um caso ilustrativo da utilidade de uma teologia antiga vs. memorial, no tratamento de uma odontalgia de repetição, como deveria ser efetuada por um médico homeopata.
Quis? Anna, uma mulher de vinte anos.
Quid? Queixas de uma odontalgia violenta.
Ubi? Em uma cavidade, dente superior posterior, do lado esquerdo.
Do qual vem sofrendo há alguns meses. Nessa descrição
geral não existe a mínima pista para a seleção
do remédio curativo, já que mais da metade das drogas experimentadas
cobrem essas condições mencionadas. Numa pesquisa posterior...
Quibus auxiliis? Nos concomitantes da paciente descobrimos uma disposição
ansiosa, tímida, lacrimosa; estômago facilmente perturbado,
particularmente por comidas gordurosas; predisposição à
diarréia mucosa; palpitação cardíaca ansiosa
ao anoitecer dentro de casa; dorme tarde; calafrios ao anoitecer, particularmente
nas costas, com calor na cabeça e frio nas extremidades.
Esses sintomas são importantes e, de certo modo, indispensáveis,
mas todavia as indicações principais citadas no parágrafo
acima são expressas pelas palavras Cur? Quomodo? Quando?
Cur? refere-se à causa excitante mais importante ou anamnesis,
que nesse caso é determinada por um frio que surge quando os pés
estão molhados, devido aos quais as menstruações,
que estavam vindo normalmente, foram suprimidas, e não apareceram
desde então.
Quomodo? Se refere a natureza das dores, que são nesse caso repuxantes,
rasgantes e ás vezes pulsáteis e em pontadas na cavidade
dental mencionada. Elas se estendem para o maxilar, o olho, a têmpora
e a orelha deste lado.
Todos os anteriores são menos importantes do que o final Quando?
Que deve conter a agravações e melhorias de acordo com o
horário, atitudes, ou situações e circunstâncias,
de maneira a fazer uma seleção certa e sem dúvidas
do medicamento.
Quando? Nesse caso, o período mais doloroso é do anoitecer
até meia-noite, quando as dores são agravadas ao sentar
quieta em um quarto quente, ao se aquecer na cama, e especialmente ao
deitar sobre o lado não-doloroso (não no doloroso), por
comida quente ou muito quente, e pelo contrário, são melhoradas
de manhã e antes do meio-dia, quando trabalha ao ar livre, ar frio,
e quando mantém água fria na boca as dores são consideravelmente
diminuídas ou cessam completamente.
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“Todo homeopata sabe que Pulsatilla é o remédio certo e nenhum outro, que ao ser ministrado na menor dose, não somente removerá com certeza todo o sofrimento junto com os concomitantes, mas uma dieta apropriada nos dias subsequentes trarão a cura permanente.”
“Essa é a maneira pela qual o assistente e mentor com familiaridade suficiente com o tratamento homeopático, através do qual, em todo tipo de queixa mental ou física, a escolha correta do medicamento pode ser feita com confiança. O médico não se deixa iludir nas negras regiões da suposições e hipóteses, onde o débil raio de luz se revela no final um ignis fatuus. Um procedimento como o nosso pode não demandar nenhum conhecimento profundo e assombroso, mas qualquer um pode observar que essa rica experiência adquirida por um amplo conhecimento, é indispensável para selecionar dentre uma centena de remédios para odontalgia o único que pode curar, uma doença que a alopatia raramente cura.”
Quando? (Quando?)
Quando utilizar os diferentes métodos
O vigor das várias abordagens metodológicas, cada uma baseada em seu próprio repertório, tradicionalmente nos levou a uma sabedoria predominante que estipula que certos casos são mais adequados a determinado método ou repertório. Por exemplo, um caso consistindo de sintomas prevalentemente mentais/emocionais e gerais se adequa mais a abordagem de Kent, enquanto um caso de gerais físicos bem definidos por modalidades e concomitantes se adequa mais a Bönninghausen, e um caso com inúmeros gerais físicos, mas sem características individualizantes a Boger ou Phatak. O principal inconveniente da utilização de várias metodologias pelos homeopatas atuais, é que poucos repertórios foram atualizados com novas patogenesias ou confirmações clínicas em andamento desde sua publicação original. Apesar de todos esses repertórios estarem geralmente inclusos nos repertórios modernos compilados, eles estão efetivamente perdidos na estrutura Kentiana, que restringe a aplicação da maioria dos métodos diferentes do de Kent.
A distinção concedida às lições de Kent no mundo de língua inglesa, e a prevalência da estrutura de seu repertório nos repertórios modernos, incentivou uma tendência à dominância desse método, comentado por Ian Watson em seu livro A Guide to the Methodologies of Homeopathy: “Na Inglaterra e nos Estados Unidos o método Kentiano é agora tão amplamente ensinado e praticado, que muitos acreditam ser esse o único meio de se praticar homeopatia. Se a existência de outros métodos for adquirida, o método de Kent é freqüentemente elevado por seus proponentes ao status de homeopatia pura, homeopatia clássica, ou mesmo homeopatia Hahnemanianna(!). Essa necessidade de alguns de ser visto como único cabedal de sabedoria, em minha opinião, criou entre os homeopatas mais divisão e discórdia do que qualquer outra coisa.” (11). Pode ser exatamente que as dimensões características do repertório de Kent – “hierarquia” e “exclusividade” – sejam geralmente sintomáticas da gestalt de Kent, e encontrem ressonância em todos os lugares!
No Repertorium Universale, agora é possível utilizar todos os métodos dentro de somente um repertório, e mesmo entremescla-los em um caso clínico, caso seja apropriado, ou utilizar a rubricas do estilo Bönninghausen para a abordagem de casos em um ângulo temático (famílias, grupos, etc). Isso efetivamente o libera para individualizar o método para um determinado caso, tão precisamente como você espera individualizar o remédio, retirando-o de uma base de dados completamente atualizada de medicamentos.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) “Existe...um hexâmetro datado de [início do século vinte] mas dos teólogos escolásticos; isso é, realmente, de construção um tanto quanto desastrada, apesar disso contém brevemente e completamente os vários momentos de acordo com os quais uma doença moral deve ser julgada de acordo com sua peculiaridade e aflição. O verso é o seguinte:
Quis? quid? ubi? quibus auxiliis? cur? quomodo? quando?
“As sete rubricas designadas nessa máxima parecem conter todos os momentos essenciais necessários à lista da imagem completa da doença. Que eu possa estar autorizado, então, a adicionar minhas marcas a esse esquema, com o desejo que esse hexâmetro, que antigamente era utilizada somente por teólogos, possa agora ser impresso na memória dos homeopatas e ser colocada em uso por estes”. Clemenz Franz Maria von Bönninghausen, “A Contribution to the Judgement Concerning the Characteristic Value of Symptoms”. 1860. Allgemeine homöopathische Zeitung Vol 60 p73. Translation L H Tafel, 1908.
(2) “Mesmo que os homeopatas percebam qu os repertórios são insuficientes para encontrar o remédio mais indicado [auxiliar] para cada caso de doença, ainda assim eles se acalmam quando têm um conhecimento desse quilate nas mãos, e então acreditam (com alguma probabilidade) estarem aptos a dispensar as fontes e não comprá-lo e não usá-lo” (Hahnemann a von Bönninghausen, 26 de Dezembro de 1834. Tradução ? Gaby Rottler 2000)
(3) “Não existem dúvidas de que um estudo diligente e amplo da Matéria Médica pura não pode ser minuciosamente consumado através do uso de qualquer repertório. Eu não quis dispensar esse estudo, ao contrário, considero todos os trabalhos com essa itenção positivamente lesivos. Ainda assim, não deve ser negado que um médico homeopata só pode se devotar a esses estudos em suas horas vagas (que são, aliás, raras), e que ele necessita em sua prática, para avivar sua memória, um trabalho que seja resumido, facilmente consultável, e que contenha os sintomas característicos e suas combinações, para permiti-lo, em qualquer caso individual de doença, selecionar dentre os remédios homeopáticos indicados, sem uma grande perda de tempo.” C M von Bönninghausen. Introduction to Therapeutic Pocketbook for Homeopathic Physicians for use at the Bedside and the Study of Mateira Medica Pura. 1846. Translation from T F Allen edition.
(4) “Inúmeras das grandes curas são feitas a partir das rubricas gerais quando as especiais não ajudam...A agravação especial é de grande ajuda, mas essas observações são frequentemente necessárias, e as rubricas gerais devem ser evocadas. Novamente,temos que trabalhar por analogia. Nesse método, o Pocket Repertory de Bönninghausen é de grande valor.”James Tyler Kent. How to Study the Repertory in Repertory of the Homeopathic Mateira Medica. 1897. 6th edition, B Jain, New Delhi. pXX.
(5) “Nada danificou mais nossa causa do que os livros que generalizam as modalidades, ex: tornando uma certa agravação ou melhoria parte de todos os estados corporais. O ar frio pode agravar o paciente, mas melhorar a cefaléia. Curvar-se geralmente agrava cefaléia, lombalgia, tosse e vertigem, no msmo grau, ainda assim, Bönninghausen o impele a olhar para um lugar e ver o todo, e eles são marcados com a mesma postuação. O paciente frequentemente sente-se melhor pelo movimento, mas suas parte, se inflamadas, estão pior pelo moviemento”. J T Kent. The View for Successful Prescribing. Homeopathician: 1(1912)140-143 in K-H Gypser (Ed). 1987. Kent’s Minor Writings on Homeopathy, B Jain, New Delhi, p645. (Note como é fácil interpretar os comentários de Kent sobre pontuações como se ele estivesse falando sobre intensidade).
(6) J T Kent, Lectures on Homeopathic Philosophy. 1991. B Jain, New Delhi.
Lecture 33, p213-214.
(Note que nessa leitura, Kent se refere ao menor grau como o terceiro
grau e o mais alto o primeiro)
(7) L M Kenyon MD (Buffalo, NY). “Curative Effect of Hamamelis”, American Homeopathic Review, Jun-Jul 1860, p412.
(8) C.M. Boger. Clinical case of Sciatica from C M Boger, Collected Writings edited by Robert Bannan. 1994. Churchill Livingstone. p43-44.
(9) A Case of Ileus, from Aphorisms of Hippocrates, C M von Bönninghausen. In Homeopathic Physician, June 1887, p188. Translation Dr A McNeil, San Francisco.
(10) A Case of Toothache, from Aphorisms of Hippocrates, C M von Bönninghausen. In Homeopathic Physician, April 1887, p116. Translation Dr A McNeil, San Francisco.
(11) Ian Watson. 1991. A Guide to the Methodologies of Homeopathy. Cutting Edge Publications, Kendal. p20









