Analise com Bönninghausen
Poderia esse ser o pequeno Barão tentando nos ensinar
por Will Taylor, MD.
Homeopathy Online, número 6, Dezembro 2000
Artigo
original em Inglês
Traduzido por Maria Tereza Pennella Freire
Ao iniciar algumas reflexões sobre o uso do Repertório de Bönninghausen, estou na realidade indo para o estágio final do processo de análise de casos – a escolha de um método repertorial, a seleção das rubricas, o “transcorrer” de uma análise repertorial (dependendo da tomada de caso cuidadosa), & para o manejo do caso. Mas algumas vezes é interessante observar “para onde estamos indo” de maneira a entender o que precisamos fazer primeiro – com esse espírito em mente, pensei que seria vantajoso mergulhar no estágio repertorial e avançar em todas as direções.
Utilizo inúmeros repertórios em meu trabalho – na maioria das vezes utilizo o Complete Repertory (no computador com o MacRepertory), mas sou também apaixonado pelo Repertorium Generale de Kent de Künzli (livro), Kent (livro e computador), o Repertório de Boger-Bönninghausen (que uso no computador), Sensations as if de Roberts, Unabridged Dictionary of Sensations As If de Ward, Böericke Repertory, e ocasionalmente o Repertório dos Hering Guiding Symptoms de Knerr. Apesar de algumas vezes procurar esses intercâmbios para achar a “rubrica certa”, muitas vezes me surpreendo optando por um ou outro para otimizar uma determinada estratégia de análise de caso.
Atualmente estou completamente enfeitiçado pelo Repertório de Bönninghausen, não tanto pelo uso universal, mas porque ele oferece uma abordagem aparentemente complementar ao método Kentiano no qual fui treinado, que pode ser mais aplicável a uma parte dos casos que vejo. Esses são casos que envolvem os sintomas característicos de patologias físicas ou doenças “localizadas”. Essa abordagem também permite trabalhar bem com doenças agudas, e pode ser uma maneira muito boa para abordar pacientes domiciliares ou doenças agudas de menor importância de maneira clássica.
A estrutura do Repertório de Bönninghausen apresenta sua lógica na abordagem particular de analisar um caso.
Bönninghausen iniciou com a observação de que *qualquer sintoma completo* contém 4 elementos – sendo estes: (1) localização, (2) sensação, (3) modalidades (agravação, melhoria, causalidade), e (4) sintomas concomitantes (sintomas ocorrendo simultaneamente que não necessariamente seguem obviamente o sintoma em questão). Para definir a totalidade da desarmonia nas pessoas que nos procuram, faremos melhor se pudermos basear nosso entendimento nas quatro pernas dessas quatro “partes” de uma sintomas completo.
Constantine Hering utilizou o seguinte esquema visual para ilustrar essas quatro dimensões de um sintoma completo e ele o disponibilizou na introdução do “The Guiding Symptoms”:
Mas foi entretanto a observação de Bönninghausen, de que nas patogenesias registradas na Matéria Médica Pura de Hahnemann (a fonte original de patogenesias daquele tempo), os sintomas registrados eram freqüentemente “incompletos”, quer dizer, nos sintomas registrados de qualquer experimentador poderia estar faltando modalidades, sensações bem descritas, etc.
Por exemplo, na Matéria Médica Pura, pp. 515-517, as dores abdominais de Colocynthis são descritas pelos experimentadores. Um experimentador descreve “Cólica”; outro descreve “junto com alguma distensão dor tipo cólica no abdômen de descarga de flatos”; outro “uma dor surda cortante, que se inicia ao caminhar e aumenta com violência a cada passo”; outro “dores cortantes no abdômen”; outro “dor cortante no hipogástrio, tão violenta, que ele tem que andar curvado...com pavor do trabalho que ele tem que fazer”; outro “alívio da violenta dor de barriga fumando cigarro”; outro “dores agudas, como se fosse severamente agarrado no abdômen – um aperto no intestino, devido a essas dores ele não pode nem ficar parado, nem sentar, nem deitar, e só consegue andar curvado para frente”.
Agora cada um desses experimentadores apresenta um sintoma incompleto, mas se combinados, nós temos a localização (hipogástrio), as sensações (surda, cortante, apertando, severamente agarrada, tipo cólica), modalidades (<cada passo andando, > curvado para frente, > tabaco), e os concomitantes (distensão, flatos, inquietude).
Bönninghausen também observou que nos experimentadores, essas “partes” de um sintoma completo algumas vezes eram combinadas diferentemente. Por exemplo, em um experimentador, o concomitante mental/emocional inquietude era visto durante uma dor de cabeça; em outro, a melhoria pelo cigarro poderia ser vista em relação à irritabilidade; no outro, a cólica apertando, a sensação tipo cólica era sentida na bexiga, no que aparentava ser uma cistite.
Similarmente a esses experimentadores, os pacientes doentes apresentavam sintomas também incompletos ou modalidades que não eram bem expressas.
Baseado nessa extensa experiência com o trabalho clínico e com as patogenesias, Bönninghausen concluiu que esse problema de “parcialidade” dos sintomas individuais tanto nas patogenesias como nos casos clínicos poderia ser resolvido por “analogia”. Quer dizer, que o sintoma de uma parte do caso clínico ou da patogenesia que existia em estado incompleto, poderia ser confiavelmente completo por analogia, aplicando as condições patentes & confiáveis de outras partes do caso. Por exemplo, quando olhamos para as dores (quaisquer tipo de dores) da condição Colocynthis, podemos observar consistentemente que elas são quase sempre em cólica, aperto ou câimbra, melhoram pela pressão, e quase sempre melhoram ficando curvados e pelo calor, e quase sempre observamos inquietude como sintoma mental/emocional concomitante com a dor. Portanto, pode ser que vejamos alguém com uma dor de cabeça que apresente característica de aperto, melhora comprimindo a cabeça com as mãos, acompanhada de inquietude. Mesmo que não encontremos esse exato sintoma em um experimentador de Colocynthis, poderemos considerar Colocynthis como possível remédio, por analogia das sensações, modalidades e concomitantes de sua dor de cabeça, com aqueles observados nas dores em outras localizações nos experimentadores de Colocynthis.
Portanto (nesse exemplo) as “partes” patentes, confiáveis & características do sintoma dor abdominal – as sensações, modalidades, e os concomitantes – podem ser consideradas como sintomas gerais de toda a pessoa, ao invés de somente peculiaridades desse sintoma específico, e podem ser aplicadas em suas várias combinações à outras localidades e tecidos.
Para lidar no Repertório com esse assunto de “parcialidade” dos sintomas, e estar apto a aplicar essa noção da finalização do sintoma por analogia, tanto nas patogenesias nas quais estamos baseando nossa identificação do simillimum, como nos casos clínicos que temos à nossa frente, Bönninghausen dividiu os sintomas em suas “partes” no seu repertório. Ao invés de procurar “dor abdominal que melhora curvando-se para frente”, você terá que procurar “dor abdominal” e “curvar para frente melhora” para acessar seu sintoma.
Bönninghausen foi tristemente mal interpretado como um negligenciador da importância dos sintomas mentais/emocionais, principalmente devido às diferenças na maneira pela qual Kent recomendava que fossem trabalhados em sua repertorização. Os sintomas emocionais/mentais, não foram “partidos” elegantemente como os sintomas físicos. Portanto, em seu repertório ele enfatizou principalmente os estados gerais, para ser usados nos estágios finais da análise repertorial quando eles eram tão marcantes no caso quanto na listagem repertorial, e sugeriu que os sintomas mentais/emocionais fossem confirmados diretamente com as palavras dos experimentadores, na fase final da repertorização, quando já tivessem sido escolhidos alguns remédios. Isso não se deve ao fato de Bönninghausen ter dado um valor menor aos sintomas mentais/emocionais na totalidade, mas porque ele achava que a mente era uma entidade complexa não tão facilmente compreensível como os sintomas físicos, para partir os sintomas mentais/emocionais da mesma maneira que os físicos.
Um exemplo de caso
Por exemplo, considere a totalidade de uma criança com crise de asma com sibilos espasmódicos (3) e tosse as 23hs (3), pior se a janela de inverno está aberta (3), quando tem que se sentar (2) na cama para respirar & está inquieto (3) com ansiedade e medo (3), & medo de ser deixado sozinho (3), querendo que os pais estejam na cama com ele (3). podemos rapidamente reconhecer a totalidade aqui, como se você pudesse reconhecer um amigo no meio da multidão, & *provavelmente* dar Ars com sucesso baseado nesse “padrão”. Mas para representar esse “padrão” de maneira que possamos encontrar isso em um repertório para confirmar a seleção, ou considerar outras possibilidades, devemos quebra-lo em “pedaços”. Eu propositadamente escolhi o que parece um caso muito simples para nos concentrarmos na lógica do que estamos fazendo aqui.
A primeira ruptura na totalidade parece óbvia: (1) a crise de asma (com suas especificidades & modalidades) e (2) o estado mental/emocional de inquietude, medo & ansiedade & medo de ficar sozinho. Nós temos a obrigação de fazer essa primeira “divisão” do padrão de acordo com a herança cultural de René Descartes & sua infame dicotomia mente/corpo – que não é obviamente a dicotomia do paciente!
Portanto, agora temos o sintoma de “interesse central”(asma) e um sintoma mental/emocional concomitante (medo ansioso/inquietude, medo de ficar sozinho, desejo de companhia). Bönninghausen determinou que o concomitante é para a totalidade, o que a modalidade é para o sintoma. Tendo a modalidade em uma “parte” da pessoa “diferente” da localização do “sintoma principal” ela apresenta um valor até superior (ex. uma “tosse concomitante devido a coceira na laringe” , apesar de útil, não é provavelmente tão útil como este).
Podemos representar esse concomitante mental/emocional em rubricas repertoriais de duas maneiras: (1) simplesmente determinando que existe um concomitante emocional/mental do sintoma de interesse central (Mente; CONCOMITANTES); e (2) especificamente determinando as dimensões desse sintoma” Mente; Medo; ansiedade, inquietude; Mente; Medo; sozinho, ficar + Mente; companhia; desejo de (combinarei essas duas últimas rubricas em uma porque elas são pequenas e cada uma carreia um aspecto do sintoma). Eu também considerei a utilização de Mente; Medo; ansiedade; inquietude; e Mente; MELH; companhia, como rubricas concomitantes do estado mental/emocional para esse caso, e enquanto digito isso, penso retrospectivamente que essa teria sido uma boa escolha para descrever o estado desse paciente. Ou poderíamos combinar as três rubricas: Mente; Medo, sozinho, ficar + Mente; Companhia; deseja + Mente; MELH; companhia; para ser ainda mais inclusivo, onde não podemos determinar realmente qual deles se aplica melhor.
Depois, podemos “quebrar” o sintoma físico da asma. Existe asma espasmódica, e tosse ( esses adicionam alguma graduação à “localização” e à “sensação”), portanto Respiração; Asma; espasmódica e Tosse; GERAL. Entretanto essa tosse é um sintoma comum dos pacientes nessa condição, e sem nenhuma característica particular da tosse (ex. como “por coceira na laringe”), provavelmente não será tão útil na repertorização. E então existem as modalidades – que Bönninghausen elevou a sintomas gerais, da pessoa como um todo. Portanto:
Generalidades; AGR; Ar; em frio
Generalidades; HORÁRIO; antes da Meia noite
Generalidades; MELH; Sentando
Inúmeros homeopatas (principalmente Constantine Hering) criticaram Bönninghausen por tirar as modalidades de seus sintomas locais. Um de seus argumentos era de que, algumas vezes as modalidades de uma parte diferiam do todo. Por exemplo Arsenicum está geralmente pior no frio e melhor no calor, mas suas cefaléias pioram no calor e melhoram no frio. Então Boger, revisando Bönninghausen, criou inúmeras seções de modalidade dentro de cada seção de localização. Então podemos também encontrar:
Respiração; AGR.; Ar; frio
Respiração; HORÁRIO; Meia noite; antes
Respiração; MELH.; Sentando, quando; ereto
Utilizando essas “modalidades das partes”, damos prioridade às “modalidades do todo”; mas *adicionamos* qualquer remédio na rubrica para “modalidade da parte” que pode estar faltando na “modalidade do todo”. Ou seja, em sua repertorização certifique-se de utilizar todos os remédios na rubrica:
Generalidade; AGR; Ar; frio em; mas note que os remédios Actea spicata e Lobelia não estão listados aqui, apesar de estarem listados em Respiração; AGR; Ar; frio. Portanto adicione-os a rubrica geral Generalidades; AGR; frio em para o objetivo desse caso.
Portanto as rubricas selecionadas do Repertório Boger-Bönninghausen para esse caso seriam:
Respiração; Asma; espasmódica
Generalidades; AGR; Ar; frio em
– combine com: Respiração; AGR.; Ar; frio
Generalidades; HORÁRIO; antes; Meia noite
– combine com: Respiração; HORÁRIO; Meia noite; antes
Generalidades; MELH.; Sentando
– combine com: Respiração; MELH.; Sentando, quando; ereto
Mente; CONCOMITANTES
Mente; Medo; ansioso, inquietude
Mente; Medo; sozinho, de estar
– combine com Mente; Companhia; deseja
Observe que eu selecionei as sete rubricas acima para representar da melhor maneira possível as quatro “pernas” do “grande sintoma do paciente”: Localização/Tecido, Sensações, modalidades, e Concomitantes.
A repertorização nos dá (Pontuação x n.º de rubricas / N.º de rubricas cobertas):
Ars (19/7 de 7); Nux-v (18/6); Phos (18/6); Bry (16/6); Cham (12/6); Kali-c (13/6); Caust (12/6); Verat (11/6).
Mas não podemos dar Ars somente pela alta pontuação, apesar de parecer óbvio & realmente tentador finalizar com isso. A repertorização é um * indicador * para o simillimum, não seu determinante. Reflita sobre/ leia sobre os remédios principais e os “concorrentes”. Vá à Matéria Médica (aqui é onde um excelente sintoma-chave/ confirmatório da matéria médica, em Matérias Médicas como Morrison, Phatak, ou Vermeulen se tornam úteis) e confirme o remédio, talvez tendo que fazer mais algumas perguntas ou observações.
Agora pode ser muito interessante avaliar a repertorização de várias maneiras. Isso não é parte integrante do método de Bönninghausen, mas pode adicionar robustez a qualquer sistema de análise repertorial de caso.
Pode ser que possamos olhar mais intensamente para os sintomas raros, estranhos e peculiares. Avaliando os sintomas REP (algo que a repertorização computadorizada torna fácil – eu uso o MacRepertory) sugere-se que olhemos com especial interesse para Ars, Lyc, Stram, Nat-c, Kali-br, e Caust (isso se deve ao fato constarem nas rubricas pequenas. Medo de ficar sozinho e/ou desejo de companhia). Mas já que esse sintoma não parece tão REP no contexto do caso, eu não o consideraria muito importante.
Similarmente avaliando os sintomas-chave sugere-se que devemos olhar para: Bry (devido a sua predominância nas rubricas Antes MN & > sentando); Ars; Lyc (Antes MN, deseja companhia) Stram (Medo sozinho); e Colch (< ar frio, > sentando).
Também podemos enfatizar os pequenos remédios. Eles são, por definição, escassamente representados em nossa literatura, portanto pode ser que o remédio que necessitamos esteja escondido em nossa repertorização devido ao fato de não ter sido adicionado á rubrica Asma, como deficiência de patogenesias & experiências clínicas inadequadas. Uma maneira seria eliminar arbitrariamente os policrestos da repertorização (não porque não gostamos de policrestos, mas porque gostaríamos de ver qual remédio sairia se eles não existissem). Portanto podemos eliminar aproximadamente 20 remédios entre os mais conhecidos e ver o que resta. Outra coisa que poderíamos fazer (através do computador) seria multiplicar a pontuação que cada remédio recebe através da “raridade” de cada remédio no repertório (ie. a probabilidade dele não estar incluído em uma rubrica a qual ele poderia pertencer), o que o MacRepertory chama de “remédio pequenos” para nossa consideração:
Mosch (11/5); Samb (6/4); Calad (6/3); Nux-m (11/5); Ran-s (6/3); Coff (6/4).
Isso pode ser também mais ou menos feito sem o computador – olhe para sua lista de repertorização para encontrar remédios que apresentam os sintomas mais característicos, mas não parecem familiares.
E agora que temos mais trabalho, podemos refletir sobre o que sabemos e/ou vamos ler sobre todas essas outras possibilidades também (adicionando a nossa lista original Stram, Nat-c, Kali-br, Colch, Mosch, Samb, Calad, Nux-m, Ran-s, Coff).
Vamos pular inúmeros deles aqui, mas um desses remédios – Moschus – parece particularmente interessante.
As rubricas que Moschus não cobre são o medo ansioso e o medo de ficar sozinho/desejo de companhia, Mas o Guia Desktop de Morrison oferece: “O paciente está ansioso, teme sua condição e acha que pode morrer...Michael Carlston de Santa Rosa, Califórnia, apresentou dois casos de asma curados por Moschus. As características eram crises de asma súbitas, severas, até mesmo com risco de vida, especialmente surgidas durante frio ou após banho, e ambos os caso estavam associados com ansiedade...”
Morrison tem 1-1/2 pagina sobre Moschus – ele fala sobre espasmos de músculos lisos como característica das queixas físicas, descreve “ansiedade”, sente que “vai morrer”, “asma histérica”, “asma súbita, severa” (compare com Cuprum). Ele não o menciona em suas notas de seminários sobre “Pequenos Remédios” ( Ridículo! – eu realmente amo sua descrição deles). A Matéria Medica Sinóptica de Vermeulen discute principalmente faces do remédio que não pertencem ao caso que estamos vendo. A Matéria Medica Concordante de Vermeulen apresenta 2-1/2 paginas de excelente impressão com uma boa descrição dos sintomas mentais/emocionais e respiratórios que não nos adicionam nenhuma luz. Clarke tem três páginas e meia que também não adicionam nada ao caso em questão. Essas referências sugerem alguns sintomas mentais/emocionais de Moschus que não observamos nesse paciente, mas não podemos descartar o remédio por esse motivo. Fazendo uma busca computadorizada no Complete Repertory, Moschus aparece em 1946 rubricas (aproximadamente a mesma quantidade de Selenium e Strontium carbonicum, remédios que se situam entre os 200 remédios mais conhecidos). No Complete Repertory encontramos muitas rubricas de ansiedade, medo e inquietude em Moschus, incluindo uma em negrito: MENTE; INQUIETUDE; nervosismo; asma, com; como adição de Knerr. O Repertório de Knerr é baseado no Hering Guiding Symptoms, portanto podemos procurar lá (Vol. 7; págs 489-498) algum material. Hering lista, entre outras coisas, “Asma em indivíduos histéricos e crianças”, bem destacado.
Decidi que aprendi muita coisa mas não estava convincentemente dissuadido do Ars. A família não tinha Moschus, Caladium, Sambucus, ou Kali bromatum em seu kit homeopático caseiro.
A criança acima *não* respondeu a Ars (30 CH dividido em doses diluídas em água), mas evoluiu bem em seu tratamento com albuterol em nebulização. Seu episódio seguinte evoluiu lindamente com Moschus 30CH em doses a cada cinco minutos em água.
Eliminação de rubricas
Existem dois contextos nos quais surge a questão de eliminação de rubricas ( confinadas a analise repertorial dos remédios contidos em duas ou mais rubricas):
(1) tornar a repertorização manual uma ferramenta manuseável (de alguma forma!)
(2) Quando se acha que essa consideração deveria ser limitada aos remédios contidos em uma única ou na combinação de rubricas pequenas.
Eu raramente apelei para #2. Temos que ser muito crédulos para acreditar que qualquer rubrica é “completa”. Recorrer ao Repertório de Künzli pode ser útil. Seria mais confortável utilizar um desses “pontos vermelhos” eliminatóriamente, já que essas rubricas foram consideradas por ele confiavelmente completas. Usualmente isso se deve ao fato de ter tomado o caso displicentemente ou não tê-lo organizado bem para avaliação, mas algumas vezes me encontro “engasgado” com isso.
Portanto, se por exemplo o paciente realmente evitou revelar qualquer sintoma mental/emocional, e essa abstenção *é* a chave mental/emocional do caso, eu a combino em uma única rubrica:
MENTE; ESCONDER, desejo de
MENTE; SECRETIVO
MENTE; MEDO; observado, de sua condição ser observada
Não sei qual a descreve melhor, mas tenho certeza de que o remédio tem que estar em pelo menos uma delas. Quero dizer, eu estou para abandonar esse caso de qualquer maneira, e vou para casa desencorajado considerando a possibilidade de mudar de profissão e ser um guia de pesca de truta ou coisa parecida.
De qualquer maneira, isso me confere uma rubrica eliminatória de tamanho considerável que contém 34 remédios ( utilizando o “Complete”). Então eu repertorizo, confinando minha análise aos remédios contidos nessa rubrica combinada (para aqueles que utilizam o MacRepertory, leve as três rubricas para o lado + da caixa eliminatória, e selecione “Por eliminação” no menu Análise). Se estiver repertorizando manualmente, use uma caneta marca-texto e destaque a linha inteira da rubrica eliminatória. E espere e confie! Bar-c se destaca linda e forte nas outras rubricas selecionadas para o caso. Agora, esse não é um caso no qual eu chamaria a minha mãe ou mandaria para publicação, mas é uma vantagem suficiente com a qual eu posso voltar ao videotape e ter pelo menos um senso de direção – e então ir pescar.
Com respeito ao #1, meu entendimento é que após David Warknting ter feito uma centena de manuais de repertorização dos casos de Bill Gray, saiu correndo e comprou um Macintosh e aprendeu como programa-lo. Para não ficar com raiva entretanto, a repertorização computadorizada “barata” de qualquer qualidade satisfatória custa U$500 mais o hardware, portanto, a não ser que você esteja ganhando seu dinheiro com isso (nesse caso se torna realmente barato), você trabalhará manualmente e em alguns casos terá que fazer eliminações ou se tornará maluco.
Uma coisa que obviamente ajudará, é fazer sua análise pré-repertorial cuidadosa do caso, a partir daí você estará focalizado e poderá escolher um mínimo de rubricas de alta qualidade e com tamanho razoável. Mesmo com o computador, eu nunca trabalho com mais de 10 rubricas por caso, entre 4 a 8 é o mais comum.
A(s) rubrica(s) eliminatória(s) deveriam obviamente, representar os sintomas mais característicos de maior importância para o caso. Pense muito nisso. Isso é uma das características mais importantes na distinção da *desarmonia desse organismo* do resto da natureza viva?
*Nunca* conte com uma localização ou condição patológica (ex. asma, psoríase, verrugas, miomas) como rubrica eliminatória. Todas por definição, são incompletas. Nas patogenesias, os remédios não são testados até o ponto de lesão. Lembremos James Tyler Kent (em algum lugar da introdução de seu repertório) afirmando que ao tratar dores no joelho ele raramente havia utilizado os remédios listados na rubrica dor no joelho de seu próprio repertório.
Modalidades características, sensações, e sintomas mentais/emocionais muito marcantes ou gerais (especialmente se eles são concomitantes de sintomas físicos centrais) – geralmente falando dessa maneira – são as melhores escolhas para rubricas eliminatórias. Se você utilizar uma modalidade ou sensação, tenha certeza de combinar as rubricas gerais e locais que se aplicam no caso (ex. Generalidades; AGR; Frio, em ar; + Respiração; AGR; Ar; frio).
Tenha certeza de que a rubrica eliminatória tem um tamanho razoável – ex. a rubrica Mente; Medo, sozinho, se usada eliminatóriamente no caso de asma discutido acima, irá eliminar o remédio eficaz. É muito pequena – somente 4 remédios – portanto muito provavelmente é incompleto. Se esse for o sintoma eliminatório que você escolher, pegue uma rubrica mais abrangente, como Medo, ou Ansiedade, ou Inquietude, ou Mente; Concomitantes, e adicione qualquer remédio que possa ser encontrado em uma sub-rubrica menor (ex. Mente; Medo + Mente; Medo de ficar sozinho + Mente; medo, ansioso, inquieto). Agora essas são provavelmente muito grandes para serem consideradas eliminatórias – aproximadamente 100 remédios cada – mas ainda assim facilitam sua tarefa de eliminação dos aproximadamente 326 remédios do Repertório de Bönninghausen. Idealmente, você gostaria de encontrar uma rubrica característica com aproximadamente 20-30 remédios que descreva um sintoma bem marcante, central e característico do paciente para ser utilizado eliminatóriamente, porque é pequeno o suficiente para mantê-lo focado, mas grande o suficiente para ser razoavelmente completa. O Repertório de Künzli pode ser útil aqui – sua rubricas de “pontos vermelhos” devem ser consideradas discriminatórias e confiávelmente completas, e isso poderia confirmar sua confiança utilizando-as para eliminação.
Se eu tivesse que utilizar uma rubrica eliminatória para o caso de asma acima, provavelmente a melhor opção seria ir para as modalidades características ( <ar frio, <antes da meia-noite, >sentando) utilizando uma ou alguma das combinações delas, ou utilizando uma rubrica abrangente para os concomitantes mentais/emocionais como Mente; Inquietude.
Gostaria de pegar novamente o caso de asma mencionado acima.
Lembre-se de que era uma criança com asma com sibilos espasmódicos (3) e tosse às 23hs (3), pior se a janela de inverno estivesse aberta (3), quando tinha que sentar (2) na cama para respirar & estava inquieto (3) com ansiedade & medo (3), & com medo de ser deixado sozinho (3), queria os pais na cama (3) junto com ele.
As rubricas que selecionei do Repertório Boger-Bönninghausen foram:
Respiração; Asma; espasmódica
Generalidades; AGR; Ar; frio em
– combine com: Respiração; AGR.; Ar; frio
Generalidades; HORÁRIO; Antes da Meia-noite
– combine com: Respiração; HORÁRIO; Meia-noite; antes
Generalidades; MELH.; Sentando
– combine com: Respiração; MELH.; Sentando, quando; ereto
Mente; CONCOMITANTES
Mente; Medo; ansiedade, inquietude
Mente; Medo; sozinho, ficar
– combine com Mente; Companhia; deseja
E apesar de Ars parecer o remédio mais óbvio através do reconhecimento do padrão e repertorização, a valorização dos pequenos remédios sugeriu que considerássemos Mosch, que provou ser o simillimum eficaz para as crises asmáticas agudas.
Nessa fase, a criança respondeu bem a Mosch numa segunda crise e a família desde então vem dando Mosch cada vez que a tosse ou os sibilos se iniciam, ou quando o fluxo espirométrico (obtidas duas vezes ao dia) cai abaixo de 80%, repetindo 30 C em água a cada hora até que o fluxo mostre uma elevação consistente. E isso reduziu seus sintomas asmáticos a um nível mínimo, com alguns episódios menores, mas sem episódios de crise durante os últimos dois meses e sem nenhuma medicação alopática. Isso é realmente uma excelente melhora para a criança. A família agora está engajada na homeopatia, até mesmo o pai está interessado (os pais geralmente são os últimos)
Mas a criança está precisando de Mosch pelo menos uma vez por semana para aumentar o fluxo diminuído ou os sintomas menores, e não há melhora progressiva de sua condição crônica. Devemos continuar com Mosch dessa maneira, ou ministrá-lo em uma potência maior ou em doses mais repetidas (ex. 30C ou 1 LM diariamente), ou procurar um remédio diferente para lidar com a origem da asma?
Quando olho a criança como um todo, fora de suas crises de asma, não vejo o quadro de Mosch. Vou mostrar um pouco do caso, mas posso dizer aqui que com uma tomada de caso cuidadosa me senti muito feliz com Mosch como remédio agudo em seus episódios agudos de asma, mas senti que devemos procurar um simillimum para a origem da desarmonia subjacente à sua asma crônica.
O segundo remédio
Bönninghausen nos dá uma grande ajuda aqui com suas Concordâncias (apêndice do seu Repertório), mostrando os remédios que seguem bem após uma resposta satisfatória a um primeiro remédio.
Precisamos no perguntar, o que fica do caso após o tratamento com Mosch?
Existem muitas coisas. O que procuramos agora, é o que resta do caso que acabamos de tomas após a ação de Mosch. Acontece que a criança continua medrosa (1) & facilmente assustada (2), querendo (2) & respondendo (2) para reafirmar, apesar de não tão agudamente como em suas crises de asma. Portanto existe uma persistência dos sintomas de sua condição mental/emocional do “estado agudo” após Mosch. Ele continua apresentando episódios de tosses e espirros – apesar de em menor intensidade, portanto existe uma persistência dos aspectos de localidade e sensação. Seus episódios de asma estão freqüentemente relacionados à exposição ao ar frio, e ele tende a apresentar cefaléias de pequena intensidade também no ar frio, portanto existe uma persistência de sua AGRavação não somente no sintoma-alvo Asma, mas também “em uma escala maior”.
Nas concordâncias de Bönninghausen para Moschus (p.1202 no Repertório), podemos consultar as concordâncias para (1) Mente, (2) Localização, (3) Sensações, e (4) AGRavação, e utilizar essas 3 rubricas que utilizaríamos em qualquer outra repertorização. Fazendo isso temos:
Nux-v (12/4 de 4), Acon (11/4), Phos (10/4), Bell (9/4), Con (6/4), Ph-ac (5/4).
Portanto, existe uma grande possibilidade (apesar de não uma certeza) de encontrarmos o remédio que segue Moschus para esse paciente em um desses seis remédios. Não é incrível??!
Espero que você possa ver que a abordagem de Bönninghausen provê uma maneira sistemática e lógica de análise e prescrição até mesmo para os casos mais complexos e difíceis.