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Roger van Zandvoort

Trechos de uma entrevista de 1994 feita com Roger van Zandvoort por Greg Bedayn sobre a versão 3.0 do Complete Repertory, descrevendo como todo projeto começou.

"Fui Acusado de ser Consciencioso sobre bobagens ..."


Roger van Zandvoort

Para todos os homeopatas, a escolha de um repertório deve se muito bem pensada; algumas vezes leva anos até que um praticante da homeopatia escolha um repertório mais adequado para si. O requisito mais importante na escolha do repertório é a confiabilidade das informações nele contidas. Muitos repertórios foram publicados nos últimos 150 anos, alguns mais úteis que outros, alguns mais precisos que outros. Roger van Zandvoort, da Holanda, é há muito tempo reconhecido por inúmeros homeopatas como um implacável pesquisador na compilação de seu trabalho, extraordinariamente expandido, o Complete Repertory. Roger foi até as últimas fronteiras para tornar seu trabalho o mais confiável e completo o possível, com milhares de rubricas adicionais e correções de rubricas e medicamentos. Seus métodos e reputação estão entre as melhores na história da pesquisa repertorial homeopática – Greg Bedayn –

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Homeopata americano (HÁ): Me fale de você.

Van Zandvoort: Tenho 36 anos, nasci em 30 de novembro de 1958 em Heerlen (Holanda). Cidade situada no sul próximo a Maastricht. Cursei só o segundo grau; comecei a fazer o ginásio por dois anos e então fui expulso. Eu tinha 19 anos quando completei o Segundo grau. Fui chamado então para o exército e servi. Inicialmente eu queria estudar medicina ou biologia. Eu já tinha sido aceito em uma das universidades para estudar biologia, mas após o período do exército pensei, “Eu não vou estudar, eu terei que estudar muito tempo”. Essa não era minha idéia do que eu queria fazer.

HÁ: Como você chegou a homeopatia?

Van Zandvoort: Bem eu estava interessado em fitoterapia e acabei indo parar em um colégio naturopático próximo a Hilversun. Enquanto estava ocupado com o assunto, e a homeopatia fazia parte do estudo, descobri que a Matéria Medica de Boericke continha muitas informações sobre fitoterapia. Isso alimentou meu pensamento: significa que muito do que é homeopatia vem da fitoterapia. Isso foi o começo, e então comecei a refinar meus estudos homeopáticos. Eu estava sempre imprimindo material de estudo no porão da escola. Eles tinham ali uma impressora e uma máquina off-set.

HÁ: Imprimia para si próprio?

Van Zandvoort: Não, para todos. Naqueles dias a organização era precária. Existia muito material espalhado, mas nenhum professor estava aproveitando. Então eu coletei todo o material e reorganizei tudo, aí comecei a imprimir o material.

HÁ: Isso me parece familiar. Foi quando você começou seu trabalho de compilação?

Van Zandvoort: Eu sempre fui uma espécie de colecionador, eu gosto de colecionar coisas. Eu comecei a colecionar borboletas quando era bem pequeno, e posteriormente comecei a colecionar cactos e outras plantas. Eu ainda coleciono borboletas, eu as capturo com minha câmera agora.

HÁ: Você colecionava plantas medicinais também?

Van Zandvoort: Ah, muitas, sim, o que me permitiu lecionar fitoterapia. Eu ainda tenho cada peça de material de estudo que tínhamos naquela escola. Elas foram coletadas por mim. Eu tinha a maior coleção de material de estudo que os professores já tinham visto. Posteriormente eu assegurei que a escola tivesse uma cópia de cada uma. Mas aí eu fiquei confuso novamente. Eu voltei anos atrás e me olhei, tive aquela dúvida se eu tinha realmente realizado alguma coisa, e tudo estava completamente disperso novamente. Então achei que não tinha valido a pena, mas eu ainda tinha todo aquele material. Muitas pessoas o haviam copiado, e devem ter ficado feliz com isso. Foi difícil coletar tudo aquilo.

HÁ: Algumas pessoas parecem gostar de copiar os resultados de seu árduo trabalho. Isso é um tema recorrente?

Van Zandvoort: Sim, chegarei a isso. Então eu terminei a escola em 83, mas ainda estava conectado a ela. Eu estava coordenando os cursos de final de semana que tínhamos, e comecei a lecionar fitoterapia. Traduzi alguns livros de fitoterapia do alemão. Fiz uma espécie de versão alemã compacta, do alemão para o holandês. Eu tinha muitos livros de fitoterapia naquela época, e escrevi algum material de estudo para a escola que eles utilizaram enquanto eu era estudante lá. Eles utilizaram ainda por alguns anos. Eu já tinha cursado três anos de homeopatia clássica nessa época. Então Wikie e eu começamos nossa prática em 1985. Antes disso só tivemos uma pequena experiência prática com colegas mais chegados.

HÁ: Então você abriu seu consultório?

Van Zandvoort: Sim. E evoluiu bem, e eu fiz alguns anos de prática. Eu ainda estava conectado a escola, mas isso foi diminuindo. Eu gastava a maior parte dos honorários em cursos de homeopatia, em todo o mundo. Fui a Grécia para conhecer Vithoulkas, e então o vi na Holanda. Voltei três vezes a Grécia para estudar com Vithoulkas, e uma vez na Inglaterra numa escola onde ele estava lecionando. Na prática, eu comecei tratando a maioria das pessoas com fitoterapia, mas quando sentia que realmente sabia o medicamento correto, eu o prescrevia, mas somente quando este estava claro para mim.

HÁ: De outro modo você não prescreveria o remédio.

Van Zandvoort: Não, eu sentia que não deveria prescrever remédios que não fizessem nenhum efeito porque as pessoas não voltariam. Então eu era muito cuidadoso com isso, e construi minha prática dessa maneira. Mas após um tempo praticamente toda a prática era homeopática. E por essa razão eu comprei um computador em 1987, e comprei o MacRepretory para me auxiliar na prática. Foi um Macintosh SE. Eu estava comparando as informações fornecidas por Bill Gray com as adições de Vithoulkas ao Synthetic Repertory, e vi que existiam muitas diferenças. Eu gostava do Synthetic Repertory, então comecei a coletar material para adicionar ao Mac repertory. Comecei a construir isso. E observei que os autores não eram sempre os mesmos, apesar de terem as mesmas adições. Então foi assim que me envolvi na questão de descobrir de onde vieram essas adições. Isso é o que eu ainda estou tentando descobrir.

HÁ: Onde se deve procurar?

Van Zandvoort: Bem você mergulha na matéria medica. Você é obrigado. Ou você mergulha em outros repertórios. Essa é outra possibilidade. O melhor é fazer os dois. Porque o que você observa algumas vezes no repertório, é que existem certas rubricas que não são completamente claras, mas existem alguns remédios que você gostaria de adicionar a elas e você não sabe exatamente onde colocá-las no Repertório de Kent. Então você tem que procurar esses remédios na matéria medica, e descobrir qual rubrica realmente era, e então decidir se você vai ou não adicionar toda essa informação ao Repertório de Kent, e caso positivo, onde.

HÁ: Então você teve que rescrever partes do Repertório de Kent para adequar todas as novas informações.

Van Zandvoort: Sim, eu comecei a adicionar muitas informações. No começo eu estava muito preocupado em tornar isso o maior possível. Existe muita coisa que qualquer um pode adicionar ao Repertório de Kent. Muitas pessoas me dizem, depois, que quando obtiveram o Complete Repertory, sentiram-se a descoberto utilizando o Repertório de Kent.

HÁ: Como você foi capaz de ordenar tudo, todos os repertórios, matérias medicas, artigos de jornais, autores, e suas fontes?

Van Zandvoort: Eu me lembro que desde o início, quando estava estudando, que tudo tinha que estar sobre a minha mesa – todos os materiais para assegurar que o estudo poderia ser completo. Caneta, papel, tudo caprichosamente ordenado, os livros certos, então eu tinha toda informação que precisava sobre o assunto que estava estudando. Isso não iniciou quando comecei a estudar homeopatia, é uma verdade geral para mim. Assim como na fitoterapia, eu observei que muitas informações que tínhamos estavam desorganizadas, então comecei a compilar minha própria base de dados, para assegurar que tudo estava lá, que eu não estava perdendo nada. Isso faz parte de mim. Eu não queria perder nada. Existe uma grande quantidade de informações faltando no Repertório de Kent, essa foi uma das razões para iniciar esse trabalho.

E foi assim que tudo começou. Uma das ferramentas mais úteis para eu fazer as alterações no repertório foi o MacRepertory. Ele foi realmente de grande ajuda. De outra maneira eu não teria ido tão longe nessa tarefa. Eu assegurei que cada grupo de pesquisa utilizaria o MacRepertory para facilitar o desenvolvimento dos vários pesquisadores que eu estava dirigindo. Era a base de dados perfeita.

HÁ: Quantos grupos estão fazendo a pesquisa para você?

Van Zandvoort: Os três mais importantes eram o grupo Boericke, o grupo Phatak, e o grupo Boger/Bönninghausen. A maioria das outras pesquisas foi feita por mim. Eu tive todos esses atalhos com chave-macros, etc. é como o trabalho de um relógio, muito organizado e preciso. Eu sei onde colocar tudo para que fique organizado. Não sobra muita coisa para melhorar. Se existe dúvida, eu simplesmente utilizo os Trabalhos de Referência para descobrir onde colocar a informação no repertório. Eu utilizo os Trabalhos de Referência diariamente com essa finalidade.

Então foi assim que comecei a fazer isso. Eu estava ocupado fazendo essa compilação, exclusivamente para minha prática. Kent fez o mesmo – no início ele fez todo o trabalho para suprir suas próprias necessidades, para utilizar em sua prática e leituras, etc. Foram seus estudantes e colegas que o pressionaram a trazer isso a tona, publicar. Portanto, todo esse tempo eu estive trabalhando na versão nova, o Complete Repertory 3.0. gosto dele do jeito que é agora. É um repertório muito bom, muito mais detalhado do que o anterior, e muito maior.

HÁ: Mais grosso quanto?

Van Zandvoort: Aproximadamente 50% maior, ele tem aproximadamente duas vezes mais rubricas que o original de Kent. E em termos de adições, ele agora está próximo de 350.000 adições. Enquanto a versão que você ainda usa tem aproximadamente algo em torno de 180.000. portanto, ele praticamente dobrou. E com adições mais corretas, mais precisas.

HÁ: Então você confirmou todas as adições das matérias médicas e repertórios originais, mas e os jornais?

Van Zandvoort: Eu utilizei os jornais quando consegui colocar minhas mãos neles. Foi difícil até encontrar você e Hansjörg Hée, o conservador da livraria da Fundação Pierre Schmidt. Os jornais antigos são muito importantes, como sabemos por Andre Saine, porque contém muitas informações excelentes que não temos em nenhum outro lugar. Eu já copiei alguns artigos da livraria Schmidt, onde encontrei esse pequeno repertório previamente desconhecido. Um repertório sobre próstata, outro sobre trato urinário, etc. muitos desse pequenos jornais desapareceram, e existem somente poucas coleções completas sobrando. Então o que estou fazendo agora é coletar todos essas informações dos repertórios, arruma-las, verificar sua confiabilidade, e adicionar ao Complete.

HÁ: Você já esteve na Universidade da Califórnia/ Livraria da Escola Médica de San Francisco? Eles possuem uma das maiores coleções de literatura homeopática.

Van Zandvoort: David Wakentin me deu a lista do que possuem. Eu também tenho um índice dos livros que existem na vasta biblioteca da Fundação Pierre Schmidt, e um índice dos livros de Julian Winston. Recentemente, Julian me mandou algumas adições de Stapf a Matéria Medica Pura de Hahnemann. Stapf juntou uma coleção de patogenesias de diferentes remédios e informações adicionais sobre remédios existentes que vieram de Hahnemann. E você não encontra esse livro em lugar nenhum. Nem Pierre Schmidt o tinha, mas Julian Winston tinha! O que faço na maioria das vezes é, quando compro um novo livro, leio cuidadosamente o prefácio e a introdução, etc., muito mais agora do que antes. Eles contém valiosas informações sobre em que matéria médica o livro está baseado, e com as matérias médicas mais recentes existem, algumas vezes, informações sobre a procedência das patogenesias, esse tipo de coisas. Como por exemplo, Clarke é o que chamamos de matéria medica secundária. Seu dicionário está baseado nas matérias médicas de patogenesias, as matérias medicas primárias. Mas como é uma literatura secundária em homeopatia, a estrutura da informação do remédio é muito mais organizada do que a estrutura original que somente lista as patogenesias. Então é por isso, por exemplo, que as matérias medicas de Clarke e Boericke são tão úteis, porque tem uma estrutura. Mas interessantemente, Clarke oferece informações de patogenesias e remédios novos que nenhuma outra matéria medica tem. Se você sabe disso, então pode adicionar essa informação, e sabe onde encontrá-la.

HÁ: Quantos repertórios fazem parte do Complete?

Van Zandvoort: Aproximadamente quarenta repertórios e matérias médicas, e todos esses outros artigos. Eu usei inúmeros repertórios pequenos, algumas vezes muito pequenos, porque, baseado nos homeopatas que os originaram, podemos considerá-los confiáveis. O que eu realmente deveria ter feito antes era começar com o material mais antigo. Mais tarde, comecei a fazer tudo em ordem histórica, para assegurar que todas as adições que temos realmente derivam da primeira pessoa que a mencionou, por motivos de confiabilidade. Alguns homeopatas da época, e ainda de hoje, são revisionistas no que deveria ser a pura transcrição de achados prévios. A informação é algumas vezes inoportuna, incorreta. Esse é motivo pelo qual eu listo todas as fontes de todos os remédios no Complete. A informação se torna mais confiável se você souber que a fonte é confiável. Você pode observar em quase todos os repertórios, mesmo nos mais novos, que alguns remédios, por algum motivo, são colocados na rubrica errada. E se você for utilizar essa informação para prescrever para um paciente, você estará perdendo o simillimum. A vida das pessoas depende da exatidão da nossa literatura; esse é o motivo pelo qual eu tenho sido tão cuidadoso na pesquisa, listando então as fontes originais, ou dando os sintomas das patogenesias. Sabe-se exatamente que esses remédios curaram esses sintomas. Eu pesquisei em toda literatura, onde consegui encontrar colaboração, baseado nos artigos que foram escritos por homeopatas confiáveis.

HÁ: Quais são os inconvenientes clássicos dos repertórios?

Van Zandvoort: Bem, o repertório é um índice para a matéria medica. É como se fosse as páginas finais da matéria médica, como um registro. Para fazer um bom registro, em qualquer ordem, como a ordem hierárquica de Kent ou em ordem alfabética (que é uma espécie de índice), é necessário que as coisas que você encontra na matéria médica sejam cortadas em pequenos pedaços, para coloca-las no índice.

Então o que você normalmente não encontra, pelo menos no Repertório de Kent, é um sintoma completo, incluindo modalidades, etc. Não inteiro. É cortado em pedaços. Isso significa que você pode encontrar todas as informações contidas na matéria medica, mas em pedaços soltos e difíceis de usar.

Você sempre deve ir a matéria médica após a repertorização para confirmar o medicamento, para que todos os pedaços que foram juntados formem uma só peça e se tornem um quadro coeso. Para citar um exemplo, você poderia ter um paciente que apresenta cefaléia frontal com dor de estômago. E você repertoriza chega a dois remédios, vamos dizer, Arsenicum e Nux vomica. Então agora você vai para a matéria medica para ver se Nux vomica apresenta cefaléias frontal. Mas você vê que somente Arsenicum apresenta cefaléia frontal com dor de estômago. Portanto esse é o seu remédio. Mas isso é uma coisa que você só vai saber se recorrer a matéria médica. O que você pode fazer, é claro, é ter uma rubrica principal de dor de cabeça, em combinação com dor no estômago. Mas existem muitas coisas como estas que não estão no Repertório de Kent, então adicionamos muitas informações como esta.

Bönninghausen tem muitos desses sintomas concomitantes. Então o sintoma específico ocorre ao mesmo tempo e está em outra parte do corpo, e eles aparecem juntos. Isso é uma informação valiosa. E já que adicionamos o Repertório Boger/Bönninghausen, e o Boger Synoptic key, você encontrará informações mais certas no Complete Repertory. Na seção Mente, por exemplo, utilizamos o Repertório de Knerr que é muito conhecido por suas citações exatas da matéria medica dos Sintomas Guias de Hering.

HÁ: Quais mudanças novas na estrutura você fez ao Repertório de Kent?

Van Zandvoort: Algumas alterações na estrutura foram trabalho de Kent, mas nunca tinham sido publicadas. Podem ser observadas no final do Repertório Geral, que Pierre Schmidt e Harish Chand fizeram. Existem outras alterações que eu fiz, que não estavam no Repertório de Kent. Eu retirei os sonhos da seção Sono e os transferi para a seção Mente, porque muitas pessoas consideram os sonhos assuntos da mente, que ocorrem quando você está dormindo. Os sonhos relacionam-se com as impressões digeridas durante o dia, mágoas antigas, e tudo o que tem a ver com coisas emocionais e do subconsciente. Então está tudo na seção Mente agora. Conversamos com muitas pessoas sobre isso, incluindo psiquiatras que possuem familiaridade com a homeopatia. E a maioria deles concordou.

Eu também combinei algumas rubricas principais na seção Mente. Por exemplo, você tinha a rubrica Falar, a rubrica Falando, e a rubrica Fala. E se você observar as sub-rubricas, você não tem certeza se elas pertencem realmente a rubrica a que estão relacionadas. Elas estão abaixo de Falar, elas deveriam estar abaixo de Fala, ou deveriam estar abaixo de Falando? Então eu as combinei. Então Falar, Fala e Falando tornaram-se uma única rubrica, e cada sub-rubrica que estava dividida entre as três rubricas, agora estão em ordem alfabética em uma rubrica principal. Se alguém realmente determinar qual sub-rubrica deveria ir abaixo de qual rubrica, eu mudaria. Mas deveria haver uma definição exata do significado de cada uma. Kent provavelmente as dividiu por uma boa razão, mas nem sempre você consegue encontrar a razão, qualquer que tenha sido. Kent utilizou outras rubricas com o mesmo significado. O motivo dele fazer isso é porque alguns repertórios mencionam “aquele” nome específico, e ele simplesmente assumiu isso. Portanto, ele utilizou outros repertórios e nem sempre verificou se já possuía essa informação com outro termo em seu repertório.

HÁ: A quantidade de trabalho que podemos fazer em uma hora no computador com o Trabalho de Referência, comparado a uma pessoa com inúmeros livros com papel e caneta é avassaladora. E imaginar Allen e Hughes trabalhando juntos na Enciclopédia de 14 volumes de Allen através de correspondências transatlânticas, parece inimaginável.

Van Zandvoort: Sim eu sei exatamente como é isso. Eu sei que Allen e Hughes coletaram materiais de outras pessoas. Não é somente seu trabalho, é uma coleção. Como Kent, eles utilizaram as descobertas um do outro. É difícil imaginar que suas realizações tenham sido possíveis, mas foram. Seria interessante voltar 120 anos para ver como isso tudo funcionava. Por outro lado também seria interessante ter Kent sentado aqui olhando para o monitor, vendo no que se transformou seu trabalho.

HÁ: Quantas fontes de informação Kent listou?

Van Zandvoort: Essa é uma das coisas que eu não aprecio muito no Repertório de Kent, ele não lista nenhuma fonte. Ele diz em alguns escritos que utilizou Allen, que usou isso e aquilo; ele diz que é uma compilação de fontes que ele utilizou, mas não é muito específico.

HÁ: E Künzli?

Van Zandvoort: Künzli é específico no que adicionamos ao Repertório de Kent. Não muito para o material original de Kent propriamente dito. Devido ao fato de estarmos ocupados com o Complete Repertory, encontramos inúmeras fontes que foram utilizadas por Kent. Ele deve ter tido uma quantidade imensa de informação para ser compilada. Então ele e seus estudantes devem ter feito uma preparação imensa para assegurar que tinham toda a informação disponível. Ele era um grande compilador. E ele teve um grande insight de como deveria ser a estrutura de um repertório. Apesar de ter tido exemplos anteriores para isso.

HÁ: Quais foram os menores repertórios que você utilizou em sua compilação, e como escolheu um ao invés do outro?

Van Zandvoort: Eu utilizei Jahr. o Repertório do Coração de Snader, Neuralgias Faciais de Lutze, todos muito bons repertórios. Andre Saine me deu uma lista que ele possuía anos atrás com todos os repertórios que de acordo com ele possuíam informações confiáveis. Eu estou atarefado coletando todas essas informações. Andre tinha as revisões de livros de todos os jornais antigos de sua coleção. Dessas revisões de livros eu posso tirar informações desconhecidas sobre os livros, autores e políticas domésticas. Eles também tinham rascunhos há 200 anos atrás! E existiam também livros excelentes. As revisões mais recentes foram de grande valia para todos os historiadores da homeopatia. Eu poderia perguntar a Andre ou outra pessoa que os tenha lido, provavelmente Julian. Existem poucas pessoas que sabem de sua existência.

Há dez anos atrás eu não ligava para o que estava escrito nas introduções do Synthetic Repertory, ou Vithoulkas Essences, ou o que quer que seja. Eu ia diretamente para o livro, e só. Agora, essa parte do livro, antes do livro em si começar, é muito importante. Porque é ali que você vai encontrar os métodos que vão fazer você decidir se vai ou não utilizar o livro em questão. Então o que eu pretendo fazer é completar todos os capítulos do repertório com todas as informações confiáveis que conseguir obter, especialmente dos repertórios, por uma razão principal: já que é um repertório, é mais fácil adicionar ao Complete. Se for uma matéria médica, vai despender muito mais trabalho. Essas pessoas já fizeram parte do trabalho para mim. Eles já cortaram em pedaços, então fica mais fácil de mastigar. Essa é a razão principal pela qual eu utilizo mais freqüentemente repertórios do que matérias medicas. Mas para a verificação você tem que ir para a matéria medica.

Então o que preciso fazer depois, por exemplo, é ter um Complete Repertory aberto na parte, vamos dizer, garganta, nariz, ouvidos. E outro Complete Repertory no trato digestivo, estômago, abdômen, reto e fezes. Combinações lógicas dos capítulos, para transformá-los em livros separados. No Complete, existe uma seção que a maioria das pessoas desconhece: Concordâncias. Você pode olhar no Repertório Boger/Bönninghausen, a última parte tem as concordâncias, que são os remédios que seguem bem, divididos em grupos. Ele dá como exemplo: Suponhamos que você tenha ministrado Aconitum para um paciente, ele evoluiu bem, e sobraram sintomas que você tem que traduzir para a linguagem repertorial para encontrar o remédio que segue bem. O que Bönninghausen fez foi dividir esses sintomas em grupos, portanto se os sintomas principais que sobraram após Aconitum ter funcionado bem foram sintomas mentais, ele descobriu quais medicamentos apresentam mais sintomas mentais após Aconitum. Ele descobriu quais remédios apresentam mais sintomas periféricos , do trato digestivo, sintomas circulatórios, ou sintomas do sono. Isso está tudo no Complete. Eu tenho que escrever algo sobre isso, porque a maioria das pessoas não sabe como utilizar. Isso pode ser muito útil. Suponha que você tenha feito uma repertorização com os sintomas do seguimento, e você está em dúvida sobre, vejamos, três policrestos que pode utilizar. É claro que é sempre útil usar a matéria medica, mas você pode, nesse caso, também utilizar a seção de Relações Entre Remédios e ver qual desses três policrestos é o mais lógico, se for um problema mental, após Aconitum, qual tem sintomas de extremidades após Aconitum? Ele estará lá. Eu gostaria de fazer disso um livro separado também. A Completa Relação Entre os Remédios. Existem muitos autores que escrevem sobre isso. Lippe tem muita informação sobre isso. Jahr tem muita informação também, e é claro, Knerr, Hering, Clarcke, todos eles falam sobre isso. E é importante. Nós sabemos alguma coisa sobre isso, mas há mais a saber.

HÁ: Você encontra com Geukens?

Van Zandvoort: Eu o vejo algumas vezes; quando ele tinha seminários eu costumava ir uns dois dias. Eu não vou mais freqüentemente a esses seminários. Seria muito. Porque existem muitos. E eu tenho que ter certeza que nesses dias eu estarei em contato com outros professores homeopatas que temos, porque eles são bons indicadores de como um repertório deveria ser, etc. É assim que funciona. Então eu vou a Suíça de vez em quando para manter contato com o Grupo Suíço. O grupo Suíço me ofereceu ajuda, anos atrás, na correção da seção Mente. Eles queriam um bom repertório para trabalhar. Foi na verdade baseado na idéia de Künzli que pensamos fazer um repertório mais completo. Esse grupo tentou convencer Künzli a utilizar o Complete Repertory. E realmente eles começaram a trabalhar nisso, e então Künzli faleceu. Ele não teve a oportunidade de ver sua idéia se tornar realidade. Quando Künzli morreu anos atrás, eu o tinha encontrado duas vezes, e falei com ele. Não foi o suficiente, eu gostaria de ter conversado mais, mas eu morava na Holanda e ele na Suíça. Mas esse grupo de estudo ele tinha, com todas essas pessoas, elas tiveram uma grande ligação com ele. E as duas pessoas que tiveram a melhor ligação com ele, Dario Spinedi e Hansjörg Hée, estão colaborando comigo. Nós tinhamos uma boa idéia do que queríamos. Todo aquele material de Boger/Bönninghausen que ele registrou. Künzli criou uma organização para incorporar o Boger-Bönninghausen no Complete, mas faleceu. Todo o trabalho já estava feito no papel, mas ainda não programado no computador.

HÁ: Como é a homeopatia na Holanda?

Van Zandvoort: A homeopatia na Holanda está bem estabelecida. Não existe reconhecimento oficial, mas existem muitos praticantes médicos e não-médicos. A homeopatia clássica está bem representada entre os 2.000 homeopatas, e o nível de prática clássica entre eles é alto. Holanda, Reino Unido e Suíça são os países mais desenvolvidos em termos de homeopatia clássica na Europa nos dias de hoje (1994). Os médicos estão melhor organizados, e os não-médicos tem diversas organizações que serão agregadas nos próximos anos. Existe muito a ser feito em relação a homeopatia na Comunidade Européia e muitos grupos tentam estabelecer regras européias a sua maneira. Existe muita política envolvida.

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